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Crime passional não existe

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Estava com muita vontade de escrever sobre um conceito que me causa incômodo – o tal do “crime passional”. Acho que existe um grande equívoco nessa expressão que, de tão repetida, já se sedimentou na subjetividade coletiva. É preciso estranhar as palavras, pois elas dizem muito sobre o que pensamos enquanto sociedade. Não, as palavras não são gratuitas! Embora muitos queiram nos fazer acreditar nisso. Infelizmente, estou absolutamente sem tempo para escrever agora, mas deixo aqui um excelente texto de Maíra Kubik Mano “Crime passional não existe” que foi indicado em “Sugestões de leitura” por Cynthia Semíramis. Prometo que, em breve, contribuirei com esse debate também.

Crime passional não existe

Cá entre nós, crime passional tem um quê de romantismo, não? Quando usamos essa expressão, geralmente é para nos referirmos a alguém que estava tão apaixonado, mas tão apaixonado que acabou cometendo um assassinato.  Ah, o amor… mexe com a cabeça dos homens, deixa eles loucos de ciúme. Como culpá-los? Sempre tão racionais e, de repente, vem uma mulher e bagunça tudo.

Não, eu não acredito nas linhas acima que, ironicamente, acabei de escrever. Mas é assim que muitas pessoas vêem esse tipo de situação: dentro de um contexto quase idílico e idealizado. Quase perdoável.

Para além da absurda falta de reconhecimento da violência sofrida pelas vítimas, uma das responsáveis por essa percepção é a mídia, que insiste em divulgar crimes de gênero como arroubos de paixão.

Dois exemplos recentes são o desaparecimento de Eliza Samudio e o assassinato da advogada Mércia Nakashima. Ambas podem ter sido mortas por seus ex-namorados – no primeiro caso, estamos nos referindo a uma celebridade dos gramados, o goleiro Bruno, do Flamengo; no segundo, a um policial aposentado – mas apesar da cobertura excepcional da imprensa, que dá atenção praticamente diária a cada passo das investigações, a questão é pouco discutida.

A mídia em geral peca pela descontextualização da notícia, mas no caso de crimes como esse a omissão é espantosa. Como não dizer, por exemplo, que a cada quinze segundos – mais ou menos o tempo que você vai levar lendo esse post – uma mulher é espancada no Brasil? E pior: que a maioria dos agressores, 87%, é o atual ou um antigo marido/namorado?

Da forma como a notícia é dada, parece que estamos falando de questões isoladas, de uma relação que fracassou de forma retumbante. A verdade, porém, é que atitudes como essa ganham os jornais todas as semanas, mesmo que seja em uma nota de pé de página.

Não há nada de romântico em ser esquartejada, ou sufocada até a morte, ou executada com um tiro na cabeça, ou eletrocutada. Muito menos por alguém que supostamente deveria te amar. Crime passional não existe, temos que parar de usar essa expressão.

Por Maíra Kubik Mano

O caso Eliza e a violência de uma sociedade patriarcal

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Nos últimos dias, os noticiários foram tomados pelo caso Eliza Samudio. Uma história envolvendo sexo, sangue e um jogador de futebol é nitroglicerina pura – prato cheio para a imprensa entreter o público após a saída da seleção brasileira da Copa. Um espetáculo lamentável e digno de repulsa, não só pela espetacularização do crime e pela crueldade com a qual foi cometido, como também pelas reações das pessoas.

O caso me provocou indignação profunda. Mas, igualmente indignantes foram os absurdos que ouvi – tanto de pessoas conhecidas quanto pela internet. É assustador ouvir alguém dizer “poxa, mas o cara acabou com a vida dele”. Esse tipo de comentário tem a mesma raiz de outros que encontrei amplamente na internet: “Trouxa, você fez filho pra pegar pensão? Então cala a boca! Puta é isso. Mulher que faz filho pra mamar dinheiro dos outros, seja quem for! Vagabunda se ferrou!” ou “Estou triste pelo jovem Bruno, um homem realizado na vida profissional e financeira e acabar tudo por causa de um envolvimento com mulher de programa, filho é feito em mulher decente e de honra que isso sirva de exemplo para os homens”.

Ainda há aqueles que disparam, sob moderado pudor: “Era uma aproveitadora, mas ninguém tem o direito de tirar a vida de outra pessoa, por pior que ela seja.” Essa é uma pequena amostra dos inúmeros comentários que estão pipocando na rede, nos bares, ruas e lares nesse momento. Chego a tremer de indignação ao pensar na amplitude que esse comportamento tem e confirmar que, infelizmente, ainda estamos muito longe de dar um fim à violência contra as mulheres.

Eliza Samudio vem sendo julgada e muitas vezes culpabilizada pela própria morte. A mídia expõe o caso em doses diárias de espetáculo nos telejornais, e a cobertura é pobre, pois não é capaz de trazer uma informação contextualizada que provoque uma reflexão sobre a violência e a desigualdade de gênero.

É o tipo de cobertura que paralisa telespectadores e telespectadoras. Ao se concentrar em mostrar detalhes da vida de Eliza, de Bruno e até de familiares de ambos, a mídia esvazia as possibilidades de reflexão e colabora com a anestesia do público. Este, de tão acostumado com a narrativa folhetinesca, passa a acompanhar o caso como se fosse mais uma novela das oito.

Nesse sentido, as pessoas imediatamente procuram identificar mocinhos/as e bandidos/as. – Bom, mas o bandido precisar ser o assassino, né? É aí que a trama enrola a cabeça do público, pois Eliza – para nossa sociedade machista e patriarcal – não cabe bem no papel de mocinha. Como poderia uma mocinha participar de orgias, de filmes pornôs, tornar-se amante de um famoso esportista e engravidar dele nessa condição?

Para a maioria das pessoas, Eliza não passava de uma simples “Maria chuteira vagabunda”. No entendimento de muitos e muitas, ela cumpriu o fim previsível para mulheres “desse tipo”. E aí o folhetim volta a ter coerência, com a narrativa carregando sua “moral da história”.

No entanto, a moral que devemos questionar é aquela dos que lamentam que o goleiro “tenha acabado com sua carreira”. Possivelmente, é a mesma dos inquisidores que queimavam “bruxas”. É a moral de quem acha natural que homens usem o corpo das mulheres como objeto em orgias, mas que taxam essas mesmas mulheres de vagabundas aproveitadoras – como se os homens não tivessem tirando proveito do corpo delas. A moral de quem se delicia com a indústria pornográfica, mas coloca as mulheres que participam dela no rol das vadias aproveitadoras.

É também a moral de quem chama de aproveitadora uma mulher que engravida em uma transa fortuita, mas não chama de aproveitador o homem que submete uma mulher a transar sem camisinha. A mesma moral de quem acha absurdo que uma mulher exija o direito de abortar, mas acha que, se essa mulher pedir pagamento de pensão, é uma aproveitadora.

Nesse contexto, Eliza Samudio não teria como ser vista de outra forma que não a de uma aproveitadora. Diante disso, eu pergunto – e quem dispôs (e desfez) do corpo dela é o que?

Em “A Dominação Masculina”, Pierre Bourdieu observa que a dominação de gênero é uma ação corporificada, ou seja, o corpo é o lugar em que as disputas de poder se inscrevem. Trago o corpo para essa reflexão por duas razões. A primeira é para afirmar que o corpo feminino sempre foi o espaço no qual os homens exerceram poder sobre as mulheres. A segunda é pela história de Eliza ser uma sucessão de referências ao exercício do poder masculino sobre o corpo das mulheres.

Ficamos sabendo que a mãe de Eliza a abandonou com apenas três anos de idades para fugir das agressões do marido. Depois descobrimos que o pai de Eliza foi condenado por estuprar uma criança de 10 anos de idade (segundo as notícias, filha dele com uma ex-cunhada). Só aí temos dois exemplos fortes de submissão do corpo feminino que devem ter marcado a vida de Eliza.

Além disso, ficamos sabendo que ela participava de orgias organizadas para jogadores de futebol e que trabalhou em filmes pornôs. Aí a gente pega esse elemento e junta ao fato de ela ter se envolvido com um indivíduo que, meses atrás, ao comentar o caso do jogador Adriano, acusado de agredir sua namorada, declarou “Qual de vocês aí, que são casados, nunca brigou com a mulher, nunca discutiu ou nunca até saiu na mão com a mulher? É normal isso aí” mostrando o quanto achava natural agredir uma mulher que se comportasse fora dos seus desejos.

Eliza ousou desafiá-lo e Bruno se viu no direito de “sair na mão com ela”. Fez ameaças, tentou dominar mais uma vez seu corpo ao obrigá-la a realizar um aborto. Não conseguindo, optou por dar fim à vida de Eliza, mostrando, mais uma vez, o quanto o corpo pode ser espaço de exercício do poder.

Dessa forma, situo o caso de Eliza na lista de feminicídios, ou seja, um crime que é subproduto de uma sociedade patriarcal, na qual valores e atitudes conferem aos homens posição de poder e controle do corpo e dos desejos femininos. Nessa posição, muitos homens acreditam possuir o direito de punir as mulheres que se oponham ao controle dos seus corpos.

Por isso, ao invés de assistirmos passivamente a essa trágica história, devemos pensar sobre a nossa parcela de responsabilidade na violência contra as mulheres. Ela é fruto de uma sociedade patriarcal que naturaliza a submissão do corpo feminino e que reproduz cotidianamente discursos e práticas machistas que perpetuam essa situação. Assim, foram violentos os assassinos de Eliza, mas também foi violento o Estado que lhe negou proteção, a mídia que transformou sua morte em espetáculo e todos e todas que passivamente assistem ao desenrolar da história se achando no direito de condená-la por ser mulher.