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A Veja e a náusea

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O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera” disse Carlos Drummond de Andrade. A frase extraída do poema “A flor e a náusea” foi a primeira coisa que lembrei ao me deparar com a matéria “A farra da Antropologia Oportunista” publicada pela revista Veja na edição de 01 de maio.

Poderia me concentrar aqui em apontar as inúmeras falhas técnicas, manipulações jornalísticas e falta de ética exposta na matéria, mas – infelizmente –  já não me surpreende o “jornalismo” rasteiro feito por veículos de comunicação que estão a serviço de uma elite caduca. O que me provocou náuseas foi o etnocentrismo e o preconceito expresso em cada palavra publicada. A matéria embaralha informações com o claro intuito de confundir o leitor, utiliza declarações falsas de antropólogos renomados e monta historietas para ridicularizar ONGs, movimentos indígenas e os profissionais da antropologia. O intuito é claro – negar o direito de afirmação dos povos indígenas e fazer uma defesa descarada de um modelo de desenvolvimento elitista e concentrador. O agronegócio é apontado como uma vítima desses “oportunistas” que desejam tirar a possibilidade de desenvolvimento do país ocupando a maior parte do território nacional. Essa afirmação é risível e só um completo incauto poderia acreditar que “Áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil”. Não vou me deter em apresentar os dados que se contrapõem, pois isso já foi feito com primor por Rafael Barbi no texto “A farra do jornalismo oportunista?”. Para desfazer as mentiras da revista deixo disponível também as respostas de antropólogos citados pela matéria (Mércio Pereira Gomes e Eduardo Viveiros de Castro), além da Nota Pública da Comissão de Assuntos Indígenas-CAI/ABA.

Na verdade, meu intuito é colocar pra fora minha indignação com o espírito reacionário dessa revista que presta um enorme desserviço a um país como o Brasil. Uma nação que carrega o peso da colonização nas costas e que precisa urgentemente aprender a reconhecer e a conviver com sua diversidade étnica-cultural e a se “descolonizar” através do reconhecimento e ressignificação de uma história marcada pelo extermínio, pela escravidão e por uma velha ideia de superação dos “atrasados” povos indígenas e quilombolas.  Quando falo de “descolonização” esclareço que não me refiro ao colonialismo – que se refere relações políticas e econômicas que envolvem a soberania de uma nação em relação as outras -, mas ao conceito de colonialidade como forma de poder que se enraizou na América Latina como forma de dominação permanente. A colonialidade se explicita numa visão tosca de progresso que se traduz na negação de direitos aos povos tradicionais, indígenas e quilombolas que são vistos sob o estigma do atraso – de tudo aquilo que não queremos e não devemos ser. A esse povo é cotidianamente negada à possibilidade de ser sujeito, de construir e decidir os caminhos do país e dos próprios territórios em que vivem – como se fossem cidadãos de segunda classe.

No texto da revista, essa colonialidade se expressa pelo olhar preconceituoso lançado sobre as comunidades tradicionais que são percebidas como entraves ao desenvolvimento (visto simplesmente como crescimento econômico). É vexatória a forma despudorada com a qual a revista agride as pessoas apresentadas na matéria como “charlatões” que compram maracas e pintam o rosto para surrupiar terras de nobres empresários que só desejam o progresso da nação. As chamadas para as historietas dão ânsia de vômito “Os novos canibais”, “Tearinho na praia”, “Macumbeiros de cocar”, “Made in Paraguai”, “Índio bom é índio pobre”e etc. Todas carregadas de um racismo desvelado e com a ignorância brutal de quem não é capaz de compreender as relações interculturais e que entende tradição como algo paralisado no tempo. A percepção de que índio não pode ter celular, não pode – como a revista ridiculariza – nem mesmo fazer compras no supermercado é uma leitura congelada e retrograda. Sobre a reflexão a cerca de quem é índio e quem não é índio fico com a frase extraída de “No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é” de Eduardo Viveiros de Castro (antropólogo a quem Veja atribuiu declarações falsas) “(…) índio não é uma questão de cocar de pena, urucum e arco e flecha, algo de aparente e evidente nesse sentido estereotipificante. Um modo de ser e não um modo de aparecer. Na verdade, algo mais (ou menos) que um modo de ser: a indianidade designava para nós um certo modo de devir, algo essencialmente invisível mas nem por isso menos eficaz: um movimento infinitesimal incessante de diferenciação, não um estado massivo de “diferença” anteriorizada e estabilizada, isto é, uma identidade”.

Finalmente, devo dizer que, embora toda a repugnância que me causou a matéria da “Veja”, fiquei feliz por ver que as pessoas já não acreditam mais tão facilmente nesse pedaço mal arrumado de ideias. Fiquei feliz também com a contestação de várias entidades e movimentos que vão tentar, por via judicial, a punição dos orquestradores dessa farsa jornalística. Espero que o episódio sirva para nos deixar ainda mais alertas aos discursos de uma elite racista e preconceituosa que pretende abafar o grito de liberdade dos povos indígenas. Embora ainda vivamos num tempo de mediocridade, fezes e maus poemas, sei que reações como a de Veja só ocorrem quando a ordem estabelecida é ameaçada. Felizmente – é isso que os movimentos indígenas estão fazendo com força cada vez maior na América Latina. Estão ameaçando uma ordem injusta e exigindo o direito de “ser” anunciando que tempos menos medíocres estão florescendo.