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Não gosto de Pollyanna(s). Ponto.

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Não é fácil escolher o livro que menos gostamos, mas não o fiz por questões literárias apenas. Sei que muita gente gosta desse livro e o acha lindo, mas a relação que temos com os livros é muito particular e cabe a cada um/a fazer seu próprio julgamento. Este é o meu…

Fiquei pensando em vários critérios de escolha e de repente…plim…pensei no livro que mais me oprimiu. Aí logo veio a mente “Pollyanna”. Eu devia ter por volta de 11 ou 12 anos de idade, não lembro direito, quando minha mãe chegou com esse livro pra mim. Achei estranho logo de cara, pois ela não tinha o hábito de me presentear com livros, mas entendi tudo quando comecei a leitura. Nessa idade eu vivia num mundo muito particular. Vivia agarrada com livros e com minhas revoltas pré-adolescentes. A Pollyanna era tudo que eu não era e não queria ser, na minha visão, uma conformada. Podem dizer tudo de lindo desse livro…que Pollyanna via o melhor no mundo, nas pessoas e na vida, mesmo diante das maiores dificuldades. Não adianta. Naquele momento, tudo que eu sentia ao paginar o livro era “conforme-se, adapte-se ao mundo, aceite”.

O pior é que todo dia minha mãe perguntava o que eu estava achando do livro. Todo dia elogiava a pitomba da Pollyanna e dizia que eu deveria aprender com a personagem. Humpff…minha raiva da pobre Pollyanna só crescia. Acabei criando um ódio da personagem como aquelas pessoas que desejam matar a vilã da novela das oito. Quanto mais boazinha era a criatura, mas eu a odiava. O pior de tudo é que naquela idade eu não tinha condições de compreender minha raiva e acabava me sentindo mal por detestar uma menina que era um doce, um exemplo de ternura e bondade. Acabava me sentindo o oposto disso e ficava péssima. A Pollyanna estava SEMPRE sorrindo e brincando com aquela chatice de “jogo do contente”. Poxa, que menina chataaaaaaaa. Era só isso que eu pensava. Eu chegava a querer beliscar a criatura pra ela entender que ninguém no mundo era tão lindinho assim. Bom, isso eu digo hoje, pois eu não elaborava que era essa a razão do meu incômodo. Ela não mudava nunca. Não duvidava nunca da bondade dos outros e nem da sua própria bondade. Pollyana é um personagem absolutamente reto e sem nuances. E pra mim, que sempre me interessei muito mais pelas chamadas “vilãs”, foi uma tortura a leitura desse livro.

Na verdade, isso diz muito da minha personalidade. Eu não sou linear, não sou completamente boa e nem má, sou uma pessoa cheia de contradições, assim como qualquer outro ser humano. Não faço a menor questão de ser santa e toda vez que vejo uma pessoa tentando ser Pollyanna, continuo com vontade de dar aquela beliscada. Até hoje!

Rápida sinopse: A menina Pollyanna vai morar com uma tia ríspida (estereótipo da mulher que chamam de mal-amada) depois da morte de seus pais. A tia não a trata muito bem, mas tem uma empregada bondosa (bem no papel de dócil serviçal) que ajuda a Pollyanna. A menina Pollyanna tem uma personalidade bem peculiar – pra não dizer irritante -, pois está sempre sorrindo e vendo o lado bom de tudo. Para isso ela joga o que chama de “Jogo do Contente”, que aprendeu com seu pai, e acaba contagiando a todos e mudando suas vidas. Assim a heroína branca de olhos claros vai vencendo todas as dificuldades e mudando a vida de todos a sua volta. É um livro de auto-ajuda disfarçado e nada mais. :/

É isso, detesto o livro e detesto o espírito Pollyanna de ser. Pronto Falei!

Pra quem desejar tirar suas próprias conclusões, segue o link para baixar a obra de Eleanor HPorter >> aqui

Também estão participando da brincadeira a Niara de Oliveira do Pimenta com Limão, a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros.

Crime passional não existe

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Estava com muita vontade de escrever sobre um conceito que me causa incômodo – o tal do “crime passional”. Acho que existe um grande equívoco nessa expressão que, de tão repetida, já se sedimentou na subjetividade coletiva. É preciso estranhar as palavras, pois elas dizem muito sobre o que pensamos enquanto sociedade. Não, as palavras não são gratuitas! Embora muitos queiram nos fazer acreditar nisso. Infelizmente, estou absolutamente sem tempo para escrever agora, mas deixo aqui um excelente texto de Maíra Kubik Mano “Crime passional não existe” que foi indicado em “Sugestões de leitura” por Cynthia Semíramis. Prometo que, em breve, contribuirei com esse debate também.

Crime passional não existe

Cá entre nós, crime passional tem um quê de romantismo, não? Quando usamos essa expressão, geralmente é para nos referirmos a alguém que estava tão apaixonado, mas tão apaixonado que acabou cometendo um assassinato.  Ah, o amor… mexe com a cabeça dos homens, deixa eles loucos de ciúme. Como culpá-los? Sempre tão racionais e, de repente, vem uma mulher e bagunça tudo.

Não, eu não acredito nas linhas acima que, ironicamente, acabei de escrever. Mas é assim que muitas pessoas vêem esse tipo de situação: dentro de um contexto quase idílico e idealizado. Quase perdoável.

Para além da absurda falta de reconhecimento da violência sofrida pelas vítimas, uma das responsáveis por essa percepção é a mídia, que insiste em divulgar crimes de gênero como arroubos de paixão.

Dois exemplos recentes são o desaparecimento de Eliza Samudio e o assassinato da advogada Mércia Nakashima. Ambas podem ter sido mortas por seus ex-namorados – no primeiro caso, estamos nos referindo a uma celebridade dos gramados, o goleiro Bruno, do Flamengo; no segundo, a um policial aposentado – mas apesar da cobertura excepcional da imprensa, que dá atenção praticamente diária a cada passo das investigações, a questão é pouco discutida.

A mídia em geral peca pela descontextualização da notícia, mas no caso de crimes como esse a omissão é espantosa. Como não dizer, por exemplo, que a cada quinze segundos – mais ou menos o tempo que você vai levar lendo esse post – uma mulher é espancada no Brasil? E pior: que a maioria dos agressores, 87%, é o atual ou um antigo marido/namorado?

Da forma como a notícia é dada, parece que estamos falando de questões isoladas, de uma relação que fracassou de forma retumbante. A verdade, porém, é que atitudes como essa ganham os jornais todas as semanas, mesmo que seja em uma nota de pé de página.

Não há nada de romântico em ser esquartejada, ou sufocada até a morte, ou executada com um tiro na cabeça, ou eletrocutada. Muito menos por alguém que supostamente deveria te amar. Crime passional não existe, temos que parar de usar essa expressão.

Por Maíra Kubik Mano