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A mulher habitada – “Coisas que não decidi acabaram decidindo minha vida”

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É absolutamente lugar-comum dizer que foi muito difícil escolher o livro mais querido de todos os tempos, né? Eu sei, mas foi isso. Foi tão difícil que atrasei minha entrada nessa onda, mas enfim…vamos lá. “A mulher habitada” foi o último livro que mexeu com as minhas entranhas. Não o escolhi por ser o último, claro, embora saiba que isso conte muito, pois as sensações ainda estão muito presentes. Sabem aqueles livros que fazem a gente se revirar na própria alma? Enfrentar alguns dos nossos maiores questionamentos, medos, desejos, aspirações e delírios? Foi isso. Engraçado que uma grande amiga minha (Monica Bonadiman) foi quem me indicou a leitura e me emprestou o livro, mas acabei por deixá-lo alguns meses parado na estante. Olhava, olhava e nunca começava a ler. Aí a Monica pediu de volta e eu não quis devolver, depois de sequestrá-lo por tanto tempo, sem ter lido uma página sequer. Seria uma indelicadeza. Por isso, comecei a ler rapidamente e…de repente…não conseguia mais parar. Devorei o livro em menos de três dias. Dias intensos, pois às vezes eu era obrigada a parar a leitura pra chorar, pensar, me desfazer e refazer para voltar a suas páginas.

A Mulher Habitada é um livro de Gioconda Belli, poetisa e revolucionária nicaraguense. A personagem principal do livro “Lavínia” é quase um alter ego da autora que foi militante da Força Sandinista de Libertação Nacional e derrubou, na década de 70, o ditador Anastacio Somoza que aprisionou a Nicarágua por mais de 40 anos.

Duas coisas que não decidi acabaram decidindo minha vida: o país onde nasci e o sexo com que vim ao mundo” diz Gioconda Belli. A autora consegue carregar esse sentimento de forma magistral em todas as páginas do livro. Lavínia, uma das personagens centrais da trama, entra na luta armada pela libertação do país a parti do momento em que começa a questionar sua própria vida que era confortavelmente burguesa. A personagem vai fazendo escolhas políticas ao longo do livro ao mesmo tempo em que começa a se defrontar mais profundamente com sua realidade enquanto mulher. Lavínia passa a dividir, além das lutas, uma história de amor com um revolucionário do mesmo grupo, mas vai encontrar nessa relação aquelas profundas contradições que nós mulheres encontramos quando estamos em movimentos e nos deparamos com os limites que nossos companheiros têm em romper com o machismo.

Mas Lavínia não é a única protagonista do livro, na verdade, são duas mulheres, pois a narrativa vai fazendo paralelos entre a história de Lavínia e da índia Itzá. Ambas não aceitaram os papéis designados a elas enquanto mulheres. O espírito de Itzá, que habita uma laranjeira no quintal de Lavínia, vai sentindo a vida e as sensações de Lavínia através da releitura de sua própria história. Quatro séculos antes, Itzá abandonou o seio de sua comunidade e partiu para a guerra contra os colonizadores espanhóis ao lado de um guerreiro que era seu grande amor. Embora as histórias de amor dessas duas mulheres sejam muito fortes, ao contrário do que possa parecer, não foi por causa delas que Lavínia e Itzá entraram nas lutas. Foi por desejo de auto-descoberta e por uma profunda inquietação com o mundo. Na verdade, os amores vão ser o “lugar” das contradições em suas vidas, sobretudo, na de Lavínia.

Não acho que sou uma boa comentarista de livros…rs…acho que não consigo traduzir nem de longe as sensações provocadas por essa leitura. Narrando assim a história de Gioconda, pode parecer um roteiro bem previsível e piegas, mas não é. Como grande poetisa, Gioconda  consegue mostrar a beleza em meio a tragédia e, principalmente, a coragem diante das incertezas.

Bom, gente…é isso. Não consegui achar o livro em PDF para baixar e parece que não está disponível para venda nas grandes livrarias, mas a Niara me deu a dica desse link onde é possível comprar através da Estante Virtual>> http://www.estantevirtual.com.br/q/gioconda-belli-a-mulher-habitada

Aproveito pra agradecer minha amiga Monica por me indicar e emprestar esse livro maravilhoso. Vou correr pra Estante Virtual, pois é um livro pra gente ter perto da gente 😉

Também estão participando da brincadeira a Niara de Oliveira do Pimenta com Limão, a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros.

Semiárido – Tecituras da Vida

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Hoje é um dia especialmente feliz. Sabe quando um trabalho feito com muita dedicação finalmente nasce para o mundo? Depois de quase nove meses de um intenso trabalho coletivo…ufaa…o livro “Retalhos de uma educação contextualizada para a convivência com o semiárido nordestino” será lançado. A publicação (composta por um livro, um jogo educativo e um DVD) sistematiza a bela experiência realizada em Tamboril- CE e foi um dos trabalhos mais realizadores que já tive a oportunidade de participar. Desse modo, espero contar com a presença das pessoas queridas nessa feliz noite na qual comemoraremos a vida, a beleza e a resistência no semiárido nordestino.

Organizações realizam lançamento coletivo que têm como
interface o semiárido

O Fórum Cearense pela Vida no Semiárido (FCVSA), a Frente Cearense por uma Nova Cultura de Águas e contra a Transposição das Águas do Rio São Francisco, o Fórum Cearense de Mulheres e a Cáritas Diocesana de Crateús promovem um lançamento coletivo de vídeos e publicações, no dia 16 de dezembro, na Praça do Passeio Público, em Fortaleza, a partir das 18hs.

Na ocasião, será lançada a coletânea de vídeos “Água: Vida e Alegria no Semiárido” e os livros: “Mulheres no semiárido um olhar feminista” e “Retalhos de uma educação contextualizada para a convivência com o semiárido nordestino”. Os três produtos têm como interface principal a temática da convivência com o semiárido tecendo reflexões acerca de sujeitos  historicamente invisibilizados: as mulheres e as crianças que vivem no campo.

A coletânea de vídeos “Água e Alegria no Semiárido” é uma realização da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) em parceria com o canal Futura. São oito pequenos vídeos que abordam temas relacionados ao uso e aos cuidados com a água. Os vídeos foram produzidos no formato de desenhos animados favorecendo um maior entendimento e identificação por parte das crianças.

Os desenhos animados foram lançados nos nove estados que compõem o semiárido brasileiro e são apresentados como mais uma ferramenta a ser usada nas salas de aula por professores e estudantes. O uso do material não se restringe as escolas localizadas no campo, mas pode e deve ser usada também em áreas urbanas.

Também será lançado o livro “Retalhos de uma educação contextualizada para a convivência com o semiárido nordestino” que aborda a experiência do município de Tamboril, na região dos Inhamuns, com a educação contextualizada. A publicação é uma parceria da Cáritas Diocesana de Crateús, o Projeto Dom Helder Camara e a Prefeitura Municipal de Tamboril. Além de uma reflexão
sobre o caminho já percorrido pela educação contextualizada no município, o livro nos traz também textos, cores e sonhos alumiados pela bonita experiência de Tamboril.

Já a publicação “Mulheres no semiárido um olhar feminista” é organizado por Maria Verônica Guedes e Rivane Arantes e editado pela Organização Não Governamental SOS Corpo. O livro traz artigos de duas autoras cearenses, militantes do movimento feminista no estado: Neudenis Albuquerque, da Escola de Formação Política e Cidadania que é autora do artigo “O corpo que entorta para a lata ficar reta” e Francisca Maria Rodrigues Sena, do Fórum Cearense de Mulheres, assina o texto que fala sobre a convivência com o semiárido e o desafio de construir relações igualitárias.

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Obs: Todo mundo que olha para o convite do evento estranha a palavra “tecitura” escrita com “C”.  Bom, para esclarecer a dúvida geral, explico que existe “tessitura” e “tecitura” e que possuem sentidos distintos. Segue a explicação:

A distinção gráfica é oficial e consta no Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (ABL, 1999):

  • tecitura s. f. “fios que se cruzam com a urdidura
  • tessitura s. f. it. “disposição de notas musicais” etc.

Sobre fogueiras midiáticas

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Sobre fogueiras midiáticas

Somos todas clandestinas!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma onda moralista, promovida pelos setores mais reacionários da sociedade, tem pautado de forma assustadora o discurso dos presidenciáveis. No centro do debate está a legalização do aborto. Se bem que debate não é a palavra certa, pois o que está acontecendo parece mais uma histeria coletiva. Nunca vi tanto conservadorismo cuspido na cara como agora.

Inspirado pelo clima da caça às bruxas um programa sensacionalista local fez uma daquelas “reportagens investigativas” e estourou uma clínica de aborto em Fortaleza, na última semana. Eu não acreditava que estava vendo aquilo na televisão. O apresentador enfurecido chamava as mulheres de assassinas cruéis enquanto passava um clipe no qual armas eram apontadas para as cabeças de lindas criancinhas (brancas e loiras – claro). O apresentador pedia punição para as assassinas de bebês. Espetáculo dantesco que joga na nossa cara o quanto é difícil fazer uma discussão séria sobre o aborto com todo o peso das crenças religiosas e do patriarcado sobre nossas cabeças.

A tarefa de reproduzir ainda é vista como um destino para as mulheres e aquelas que decidem assumir poder sobre seu próprio corpo só possuem como alternativa a clandestinidade. Embora eu concorde que a legalização do aborto é uma questão de saúde pública, não resumo a isso. Fosse assim, os números assustadores de mortes em decorrência de abortos inseguros seriam suficientes para que a sociedade fizesse uma opção pela legalização. No entanto, é a autonomia das mulheres e o direito de exercer poder sobre seus próprios corpos que precisa ser debatido, mas isso é muito ameaçador nesse momento, né?

Bom, aproveito para reproduzir aqui a nota pública com o posicionamento dos movimentos de mulheres do Ceará em relação à repugnante matéria da TV Cidade (retransmissora da Record no Ceará).

NOTA PÚBLICA

Nós, movimentos de mulheres do Ceará, manifestamos nosso repúdio à forma como a TV Cidade abordou o tema do aborto em matéria veiculada no programa CIDADE 190 do dia 07/10/2010. A matéria aborda, de forma sensacionalista e desrespeitosa , o tema do aborto, sem considerar a realidade das mulheres que, por diferentes razões, precisam a este recorrer. A forma tendenciosa e apelativa com que a questão foi tratada fere os princípios jornalísticos, não permitindo o confronto de idéias, não ouvindo as opiniões divergentes das expostas na matéria, criminalizando as mulheres e impedindo assim o debate democrático – condição básica para um veículo que é uma concessão pública.

O Programa Cidade 190 coloca-se como de prestação de serviços e um canal de denúncia dos problemas da comunidade e das dificuldades que atingem a população mais pobre, mas a postura tem sido outra, evidenciada na forma com tratou a questão do aborto, que afeta diretamente a vida das mulheres, sobretudo das mais pobres, de forma descomprometida com a realidade destas.

Por ser um serviço público, a informação divulgada pelos veículos de comunicação de rádio e TV precisa refletir a pluralidade de opiniões, respeitando as diferenças econômicas, políticas, sociais, de religião, de gênero, de raça, de orientação sexual, de condição física do nosso povo. Mas, da forma como a questão do aborto foi exposta, não contribui para a reflexão e o debate sobre o tema, pois não contextualiza os diversos fatores que envolvem a situação do aborto no Brasil; apenas explora os sentimentos das pessoas de forma grotesca.

O direito ao aborto é defendido internacionalmente como questão de saúde pública em deliberação da Organização Mundial de Saúde (OMS) e foi aprovado nas duas Conferências de Políticas para Mulheres, na Conferência Nacional de Direitos Humanos, na Conferência Nacional de Juventude, na Conferência Nacional de Igualdade Racial e Étnica e Conferência Nacional LGBTT.

Isso significa que o tema precisa ser abordado a partir de muitas questões, entre estas, as centenas de morte de mulheres, os milhares de atendimentos nos hospitais públicos daquelas a quem só resta o uso de métodos inseguros e o risco de morte e as centenas de milhares de casos que sequer chegam ao conhecimento público.

O aborto diz respeito às violências cotidianas que as mulheres e meninas enfrentam no estupro e no abandono tanto dos homens quanto das instituições públicas. Diz respeito à necessidade de reconhecer as mulheres como eticamente capazes de decidir sobre suas vidas. Diz respeito aos direitos humanos e autonomia das mulheres. Diz respeito à justiça social, pois são as mais pobres que estão sujeitas a morrer, a serem maltratadas nos hospitais ou presas. Diz respeito ainda à construção democrática do debate e das decisões sobre as políticas públicas. É devido à ilegalidade do aborto e a criminalização das mulheres que surgem as clínicas clandestinas. Elas são reflexos das negações do direito das mulheres de decidir sobre suas vidas.

A forma como a TV Cidade tratou o tema é um desserviço ao debate democrático, pois não permite a diversidade de opiniões e impõe um pensamento único. Por isso, se faz necessário que essa televisão resgata os princípios democráticos do jornalismo e trate a questão do aborto com a seriedade e complexidade que ela exige. Caso contrário, continuará reafirmando um modelo de sociedade e de mídia que nega a possibilidade de um debate que estabeleça a real cidadania.

Nenhuma mulher deve ser presa, maltratada, humilhada ou morta por praticar aborto!

Pela não criminalização das mulheres e pela legalização do aborto!