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Mulheres indígenas – violência, opressão e resistência

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Através dos séculos nossa voz foi sufocada. Mas muitas vozes femininas ecoaram. Hoje o princípio da Terra, cujas sementes brotaram a partir das lágrimas de dor das mães, tias, avós e bisavós desse país se fazem presentes.

“Cunhã-Uasu Muacasáua – MULHERES FORTES E UNIDAS!”.

Hoje é o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher e escolhi destinar meu post à visibilidade das lutas por direito das mulheres indígenas. Quase sempre esquecidas nos debates sobre gênero, as mulheres indígenas são vítimas de graves violações de direito e são multiplamente ameaçadas pela discriminação de sexo, raça, etnia e classe social.

Segundo relatório da ONU, divulgado em 2010, uma em cada três índias é estuprada durante a vida. Isso deixa claro que as mulheres indígenas são mais vulneráveis a violência do que as demais. Numa sociedade patriarcal, que já coloca as mulheres em situação de desigualdade, o que dizer das mulheres indígenas que historicamente foram violentadas e massacradas pelos invasores? Que proteção essas mulheres possuem?

As mulheres indígenas são as mais gravemente afetadas pelo modelo de desenvolvimento econômico imposto no Brasil. São elas que sofrem de forma mais contundente os impactos provocados sobre o meio ambiente. Quando os indígenas perdem acesso aos recursos ambientais que garantem sua segurança e soberania alimentar, são as mulheres as mais penalizadas, pois geralmente são elas as responsáveis por cuidar da alimentação. Essa é uma característica comum a muitas comunidades tradicionais. Também são elas as mais impactadas pelas grandes obras que perturbam o modo de vida de suas comunidades. Com o inchaço das cidades próximas, o modo de vida e os costumes dos povos passam a ser profundamente impactados e isso acaba recaindo de modo violento sobre as mulheres. Basta chegar a qualquer canteiro de obra existente hoje, na Amazônia ou no Nordeste, para verificar o aumento dos casos de exploração sexual de crianças, jovens e mulheres, o aumento do consumo de álcool e bebidas alcóolicas. Sobre isso, organizações de mulheres indígenas já cobram medidas há bastante tempo. Como exemplo, temos o trecho retirado de um documento publicado pela organização de mulheres indígenas de Roraima:

Nós, mulheres indígenas, temos sido as principais vítimas das bebidas alcóolicas; somos agredidas, abusadas sexualmente, e vivemos sob ameaça das consequências da bebida alcoólica. Nossas comunidades já escreveram inúmeras cartas pedindo providências para a retirada dos bares que comercializam bebidas no interior das aldeias indígenas, mas até o momento não temos resultados em nossos pedidos. É a nossa vida que está em questão, e não podemos calar, mas cobrar. (Mulheres, 2006)

E ainda:

Cresce a violência contra os povos indígenas e suas lideranças. Neste cenário, destaca-se a grande vulnerabilidade, pelas várias formas de violência que as mulheres e as crianças indígenas sofrem: física, moral, psicológica, entre outras (Assembleia, 2007)

Índia da etnia sateré-mawé se coloca na frente da tropa de choque

Elas também são as maiores vítimas nos conflitos e massacres sofridos pelos povos indígenas, pois muitas vezes os agressores usam o estupro como arma de “desmoralização” desses povos. Além disso, também sofrem com a perda dos filhos e maridos perseguidos por posseiros, etc. É expressiva – embora nem sempre receba a devida visibilidade – a participação das mulheres indígenas nos movimentos e lutas pelo direito à terra e por isso são também frequentemente alvo de ataques.

Não bastassem as violações de direito que são frutos das intervenções da sociedade sobre o modo de vida dessas populações, também precisamos refletir sobre a violência sofrida pelas mulheres indígenas no seio de suas próprias comunidades. As indígenas reconhecem e  denunciam inúmeras práticas discriminatórias que sofrem: casamentos forçados, violência doméstica, estupros, limitações de acesso à terra, limitações para organização e participação política e outras formas de dificuldade enfrentadas em consequência do patriarcalismo presente em suas comunidades. Embora esse seja um campo delicado de tratar, devido ao enfoque específico e multicultural que precisa ser dado, é necessário ouvir o que as organizações de mulheres indígenas estão reivindicando. O Estado brasileiro não tem se mostrado interessado ou capaz de desenvolver estratégias específicas para o enfrentamento da violência contra mulheres indígenas, as ações são pulverizadas e não há nenhum programa oficial especificamente destinado a esse público. Dessa falta de políticas específicas e multiculturais surge uma questão “as nossas leis atendem as necessidades reais dessas mulheres?”. A Lei Maria da Penha já foi discutida em algumas ocasiões e encontros pelos movimentos de mulheres indígenas e sempre é alvo de muitas dúvidas e questionamentos. Além de debaterem as questões relativas às desigualdades de gênero em suas comunidades, as mulheres indígenas também querem fazer emergir o debate sobre o diálogo entre os parâmetros jurídicos estatais e não-estatais. A visão etnocêntrica, na qual se assenta nosso sistema jurídico, tem dificuldade em reconhecer outros sistemas de justiça. É como se o direito estabelecido pelas sociedades indígenas, nos termos de Boaventura de Sousa Santos, fossem “subtraídos do mundo”. Desse modo, o grande desafio é pensar em uma compatibilização entre o direito do Estado e os diversos direitos indígenas, considerando suas especificidades na busca de uma democracia intercultural.

Este post não tem a pretensão de oferecer respostas à problemática das mulheres indígenas ou mesmo fazer um apanhando das violações sofridas por elas, pois isso exigiria um texto muito mais amplo e uma pesquisa profunda, já que praticamente não existem dados sistematizados sobre o assunto. No entanto, tem como objetivo lembrar que essas mulheres existem e sofrem de forma ainda mais impactante as violações de direitos, que estão se organizando cada vez mais no sentido de lutar pelos seus direitos e que suas pautas precisam sair da invisibilidade. Acredito que a diversidade, a pluralidade, e interculturalidade sejam premissas para pensar políticas de igualdade de gênero e que esta seja uma pauta fundamental a ser trabalhada pelos movimentos feministas.

Recomendo a publicação do INESC “Mulheres Indígenas, Direitos e Políticas Públicas ” que traz quatro artigos sobre a questão de direitos no seio de comunidades indígenas, além de sistematizações de oficinas realizadas exclusivamente com mulheres indígenas. Os artigos debatem o movimento de mulheres, a efetividade da Lei Maria da Penha para as mulheres indígenas, entre outras questões. O link>> http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/outras-publicacoes/LIVRO%20MULHERES%20INDIGENAS1.pdf

A mulher habitada – “Coisas que não decidi acabaram decidindo minha vida”

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É absolutamente lugar-comum dizer que foi muito difícil escolher o livro mais querido de todos os tempos, né? Eu sei, mas foi isso. Foi tão difícil que atrasei minha entrada nessa onda, mas enfim…vamos lá. “A mulher habitada” foi o último livro que mexeu com as minhas entranhas. Não o escolhi por ser o último, claro, embora saiba que isso conte muito, pois as sensações ainda estão muito presentes. Sabem aqueles livros que fazem a gente se revirar na própria alma? Enfrentar alguns dos nossos maiores questionamentos, medos, desejos, aspirações e delírios? Foi isso. Engraçado que uma grande amiga minha (Monica Bonadiman) foi quem me indicou a leitura e me emprestou o livro, mas acabei por deixá-lo alguns meses parado na estante. Olhava, olhava e nunca começava a ler. Aí a Monica pediu de volta e eu não quis devolver, depois de sequestrá-lo por tanto tempo, sem ter lido uma página sequer. Seria uma indelicadeza. Por isso, comecei a ler rapidamente e…de repente…não conseguia mais parar. Devorei o livro em menos de três dias. Dias intensos, pois às vezes eu era obrigada a parar a leitura pra chorar, pensar, me desfazer e refazer para voltar a suas páginas.

A Mulher Habitada é um livro de Gioconda Belli, poetisa e revolucionária nicaraguense. A personagem principal do livro “Lavínia” é quase um alter ego da autora que foi militante da Força Sandinista de Libertação Nacional e derrubou, na década de 70, o ditador Anastacio Somoza que aprisionou a Nicarágua por mais de 40 anos.

Duas coisas que não decidi acabaram decidindo minha vida: o país onde nasci e o sexo com que vim ao mundo” diz Gioconda Belli. A autora consegue carregar esse sentimento de forma magistral em todas as páginas do livro. Lavínia, uma das personagens centrais da trama, entra na luta armada pela libertação do país a parti do momento em que começa a questionar sua própria vida que era confortavelmente burguesa. A personagem vai fazendo escolhas políticas ao longo do livro ao mesmo tempo em que começa a se defrontar mais profundamente com sua realidade enquanto mulher. Lavínia passa a dividir, além das lutas, uma história de amor com um revolucionário do mesmo grupo, mas vai encontrar nessa relação aquelas profundas contradições que nós mulheres encontramos quando estamos em movimentos e nos deparamos com os limites que nossos companheiros têm em romper com o machismo.

Mas Lavínia não é a única protagonista do livro, na verdade, são duas mulheres, pois a narrativa vai fazendo paralelos entre a história de Lavínia e da índia Itzá. Ambas não aceitaram os papéis designados a elas enquanto mulheres. O espírito de Itzá, que habita uma laranjeira no quintal de Lavínia, vai sentindo a vida e as sensações de Lavínia através da releitura de sua própria história. Quatro séculos antes, Itzá abandonou o seio de sua comunidade e partiu para a guerra contra os colonizadores espanhóis ao lado de um guerreiro que era seu grande amor. Embora as histórias de amor dessas duas mulheres sejam muito fortes, ao contrário do que possa parecer, não foi por causa delas que Lavínia e Itzá entraram nas lutas. Foi por desejo de auto-descoberta e por uma profunda inquietação com o mundo. Na verdade, os amores vão ser o “lugar” das contradições em suas vidas, sobretudo, na de Lavínia.

Não acho que sou uma boa comentarista de livros…rs…acho que não consigo traduzir nem de longe as sensações provocadas por essa leitura. Narrando assim a história de Gioconda, pode parecer um roteiro bem previsível e piegas, mas não é. Como grande poetisa, Gioconda  consegue mostrar a beleza em meio a tragédia e, principalmente, a coragem diante das incertezas.

Bom, gente…é isso. Não consegui achar o livro em PDF para baixar e parece que não está disponível para venda nas grandes livrarias, mas a Niara me deu a dica desse link onde é possível comprar através da Estante Virtual>> http://www.estantevirtual.com.br/q/gioconda-belli-a-mulher-habitada

Aproveito pra agradecer minha amiga Monica por me indicar e emprestar esse livro maravilhoso. Vou correr pra Estante Virtual, pois é um livro pra gente ter perto da gente 😉

Também estão participando da brincadeira a Niara de Oliveira do Pimenta com Limão, a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros.

Semiárido – Tecituras da Vida

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Hoje é um dia especialmente feliz. Sabe quando um trabalho feito com muita dedicação finalmente nasce para o mundo? Depois de quase nove meses de um intenso trabalho coletivo…ufaa…o livro “Retalhos de uma educação contextualizada para a convivência com o semiárido nordestino” será lançado. A publicação (composta por um livro, um jogo educativo e um DVD) sistematiza a bela experiência realizada em Tamboril- CE e foi um dos trabalhos mais realizadores que já tive a oportunidade de participar. Desse modo, espero contar com a presença das pessoas queridas nessa feliz noite na qual comemoraremos a vida, a beleza e a resistência no semiárido nordestino.

Organizações realizam lançamento coletivo que têm como
interface o semiárido

O Fórum Cearense pela Vida no Semiárido (FCVSA), a Frente Cearense por uma Nova Cultura de Águas e contra a Transposição das Águas do Rio São Francisco, o Fórum Cearense de Mulheres e a Cáritas Diocesana de Crateús promovem um lançamento coletivo de vídeos e publicações, no dia 16 de dezembro, na Praça do Passeio Público, em Fortaleza, a partir das 18hs.

Na ocasião, será lançada a coletânea de vídeos “Água: Vida e Alegria no Semiárido” e os livros: “Mulheres no semiárido um olhar feminista” e “Retalhos de uma educação contextualizada para a convivência com o semiárido nordestino”. Os três produtos têm como interface principal a temática da convivência com o semiárido tecendo reflexões acerca de sujeitos  historicamente invisibilizados: as mulheres e as crianças que vivem no campo.

A coletânea de vídeos “Água e Alegria no Semiárido” é uma realização da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) em parceria com o canal Futura. São oito pequenos vídeos que abordam temas relacionados ao uso e aos cuidados com a água. Os vídeos foram produzidos no formato de desenhos animados favorecendo um maior entendimento e identificação por parte das crianças.

Os desenhos animados foram lançados nos nove estados que compõem o semiárido brasileiro e são apresentados como mais uma ferramenta a ser usada nas salas de aula por professores e estudantes. O uso do material não se restringe as escolas localizadas no campo, mas pode e deve ser usada também em áreas urbanas.

Também será lançado o livro “Retalhos de uma educação contextualizada para a convivência com o semiárido nordestino” que aborda a experiência do município de Tamboril, na região dos Inhamuns, com a educação contextualizada. A publicação é uma parceria da Cáritas Diocesana de Crateús, o Projeto Dom Helder Camara e a Prefeitura Municipal de Tamboril. Além de uma reflexão
sobre o caminho já percorrido pela educação contextualizada no município, o livro nos traz também textos, cores e sonhos alumiados pela bonita experiência de Tamboril.

Já a publicação “Mulheres no semiárido um olhar feminista” é organizado por Maria Verônica Guedes e Rivane Arantes e editado pela Organização Não Governamental SOS Corpo. O livro traz artigos de duas autoras cearenses, militantes do movimento feminista no estado: Neudenis Albuquerque, da Escola de Formação Política e Cidadania que é autora do artigo “O corpo que entorta para a lata ficar reta” e Francisca Maria Rodrigues Sena, do Fórum Cearense de Mulheres, assina o texto que fala sobre a convivência com o semiárido e o desafio de construir relações igualitárias.

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Obs: Todo mundo que olha para o convite do evento estranha a palavra “tecitura” escrita com “C”.  Bom, para esclarecer a dúvida geral, explico que existe “tessitura” e “tecitura” e que possuem sentidos distintos. Segue a explicação:

A distinção gráfica é oficial e consta no Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (ABL, 1999):

  • tecitura s. f. “fios que se cruzam com a urdidura
  • tessitura s. f. it. “disposição de notas musicais” etc.

Sobre fogueiras midiáticas

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Sobre fogueiras midiáticas

Somos todas clandestinas!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma onda moralista, promovida pelos setores mais reacionários da sociedade, tem pautado de forma assustadora o discurso dos presidenciáveis. No centro do debate está a legalização do aborto. Se bem que debate não é a palavra certa, pois o que está acontecendo parece mais uma histeria coletiva. Nunca vi tanto conservadorismo cuspido na cara como agora.

Inspirado pelo clima da caça às bruxas um programa sensacionalista local fez uma daquelas “reportagens investigativas” e estourou uma clínica de aborto em Fortaleza, na última semana. Eu não acreditava que estava vendo aquilo na televisão. O apresentador enfurecido chamava as mulheres de assassinas cruéis enquanto passava um clipe no qual armas eram apontadas para as cabeças de lindas criancinhas (brancas e loiras – claro). O apresentador pedia punição para as assassinas de bebês. Espetáculo dantesco que joga na nossa cara o quanto é difícil fazer uma discussão séria sobre o aborto com todo o peso das crenças religiosas e do patriarcado sobre nossas cabeças.

A tarefa de reproduzir ainda é vista como um destino para as mulheres e aquelas que decidem assumir poder sobre seu próprio corpo só possuem como alternativa a clandestinidade. Embora eu concorde que a legalização do aborto é uma questão de saúde pública, não resumo a isso. Fosse assim, os números assustadores de mortes em decorrência de abortos inseguros seriam suficientes para que a sociedade fizesse uma opção pela legalização. No entanto, é a autonomia das mulheres e o direito de exercer poder sobre seus próprios corpos que precisa ser debatido, mas isso é muito ameaçador nesse momento, né?

Bom, aproveito para reproduzir aqui a nota pública com o posicionamento dos movimentos de mulheres do Ceará em relação à repugnante matéria da TV Cidade (retransmissora da Record no Ceará).

NOTA PÚBLICA

Nós, movimentos de mulheres do Ceará, manifestamos nosso repúdio à forma como a TV Cidade abordou o tema do aborto em matéria veiculada no programa CIDADE 190 do dia 07/10/2010. A matéria aborda, de forma sensacionalista e desrespeitosa , o tema do aborto, sem considerar a realidade das mulheres que, por diferentes razões, precisam a este recorrer. A forma tendenciosa e apelativa com que a questão foi tratada fere os princípios jornalísticos, não permitindo o confronto de idéias, não ouvindo as opiniões divergentes das expostas na matéria, criminalizando as mulheres e impedindo assim o debate democrático – condição básica para um veículo que é uma concessão pública.

O Programa Cidade 190 coloca-se como de prestação de serviços e um canal de denúncia dos problemas da comunidade e das dificuldades que atingem a população mais pobre, mas a postura tem sido outra, evidenciada na forma com tratou a questão do aborto, que afeta diretamente a vida das mulheres, sobretudo das mais pobres, de forma descomprometida com a realidade destas.

Por ser um serviço público, a informação divulgada pelos veículos de comunicação de rádio e TV precisa refletir a pluralidade de opiniões, respeitando as diferenças econômicas, políticas, sociais, de religião, de gênero, de raça, de orientação sexual, de condição física do nosso povo. Mas, da forma como a questão do aborto foi exposta, não contribui para a reflexão e o debate sobre o tema, pois não contextualiza os diversos fatores que envolvem a situação do aborto no Brasil; apenas explora os sentimentos das pessoas de forma grotesca.

O direito ao aborto é defendido internacionalmente como questão de saúde pública em deliberação da Organização Mundial de Saúde (OMS) e foi aprovado nas duas Conferências de Políticas para Mulheres, na Conferência Nacional de Direitos Humanos, na Conferência Nacional de Juventude, na Conferência Nacional de Igualdade Racial e Étnica e Conferência Nacional LGBTT.

Isso significa que o tema precisa ser abordado a partir de muitas questões, entre estas, as centenas de morte de mulheres, os milhares de atendimentos nos hospitais públicos daquelas a quem só resta o uso de métodos inseguros e o risco de morte e as centenas de milhares de casos que sequer chegam ao conhecimento público.

O aborto diz respeito às violências cotidianas que as mulheres e meninas enfrentam no estupro e no abandono tanto dos homens quanto das instituições públicas. Diz respeito à necessidade de reconhecer as mulheres como eticamente capazes de decidir sobre suas vidas. Diz respeito aos direitos humanos e autonomia das mulheres. Diz respeito à justiça social, pois são as mais pobres que estão sujeitas a morrer, a serem maltratadas nos hospitais ou presas. Diz respeito ainda à construção democrática do debate e das decisões sobre as políticas públicas. É devido à ilegalidade do aborto e a criminalização das mulheres que surgem as clínicas clandestinas. Elas são reflexos das negações do direito das mulheres de decidir sobre suas vidas.

A forma como a TV Cidade tratou o tema é um desserviço ao debate democrático, pois não permite a diversidade de opiniões e impõe um pensamento único. Por isso, se faz necessário que essa televisão resgata os princípios democráticos do jornalismo e trate a questão do aborto com a seriedade e complexidade que ela exige. Caso contrário, continuará reafirmando um modelo de sociedade e de mídia que nega a possibilidade de um debate que estabeleça a real cidadania.

Nenhuma mulher deve ser presa, maltratada, humilhada ou morta por praticar aborto!

Pela não criminalização das mulheres e pela legalização do aborto!

Crime passional não existe

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Estava com muita vontade de escrever sobre um conceito que me causa incômodo – o tal do “crime passional”. Acho que existe um grande equívoco nessa expressão que, de tão repetida, já se sedimentou na subjetividade coletiva. É preciso estranhar as palavras, pois elas dizem muito sobre o que pensamos enquanto sociedade. Não, as palavras não são gratuitas! Embora muitos queiram nos fazer acreditar nisso. Infelizmente, estou absolutamente sem tempo para escrever agora, mas deixo aqui um excelente texto de Maíra Kubik Mano “Crime passional não existe” que foi indicado em “Sugestões de leitura” por Cynthia Semíramis. Prometo que, em breve, contribuirei com esse debate também.

Crime passional não existe

Cá entre nós, crime passional tem um quê de romantismo, não? Quando usamos essa expressão, geralmente é para nos referirmos a alguém que estava tão apaixonado, mas tão apaixonado que acabou cometendo um assassinato.  Ah, o amor… mexe com a cabeça dos homens, deixa eles loucos de ciúme. Como culpá-los? Sempre tão racionais e, de repente, vem uma mulher e bagunça tudo.

Não, eu não acredito nas linhas acima que, ironicamente, acabei de escrever. Mas é assim que muitas pessoas vêem esse tipo de situação: dentro de um contexto quase idílico e idealizado. Quase perdoável.

Para além da absurda falta de reconhecimento da violência sofrida pelas vítimas, uma das responsáveis por essa percepção é a mídia, que insiste em divulgar crimes de gênero como arroubos de paixão.

Dois exemplos recentes são o desaparecimento de Eliza Samudio e o assassinato da advogada Mércia Nakashima. Ambas podem ter sido mortas por seus ex-namorados – no primeiro caso, estamos nos referindo a uma celebridade dos gramados, o goleiro Bruno, do Flamengo; no segundo, a um policial aposentado – mas apesar da cobertura excepcional da imprensa, que dá atenção praticamente diária a cada passo das investigações, a questão é pouco discutida.

A mídia em geral peca pela descontextualização da notícia, mas no caso de crimes como esse a omissão é espantosa. Como não dizer, por exemplo, que a cada quinze segundos – mais ou menos o tempo que você vai levar lendo esse post – uma mulher é espancada no Brasil? E pior: que a maioria dos agressores, 87%, é o atual ou um antigo marido/namorado?

Da forma como a notícia é dada, parece que estamos falando de questões isoladas, de uma relação que fracassou de forma retumbante. A verdade, porém, é que atitudes como essa ganham os jornais todas as semanas, mesmo que seja em uma nota de pé de página.

Não há nada de romântico em ser esquartejada, ou sufocada até a morte, ou executada com um tiro na cabeça, ou eletrocutada. Muito menos por alguém que supostamente deveria te amar. Crime passional não existe, temos que parar de usar essa expressão.

Por Maíra Kubik Mano

Patriarcado da violência

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Eliza Samudio está morta. Ela foi sequestrada, torturada e assassinada. Seu corpo foi esquartejado para servir de alimento para uma matilha de cães famintos. A polícia ainda procura vestígios de sangue no sítio em que ela foi morta ou pistas do que restou do seu corpo para fechar esse enredo macabro. As investigações policiais indicam que os algozes de Eliza agiram a pedido de seu ex-namorado, o goleiro do Flamengo, Bruno. Ele nega ter encomendado o crime, mas a confissão veio de um adolescente que teria participado do sequestro de Eliza. Desde então, de herói e “patrimônio do Flamengo”, nas palavras de seu ex-advogado, Bruno tornou-se um ser abjeto. Ele não é mais aclamado por uma multidão de torcedores gritando em uníssono o seu nome após uma partida de futebol. O urro agora é de “assassino”.

O que motiva um homem a matar sua ex-namorada? O crime passional não é um ato de amor, mas de ódio. Em algum momento do encontro afetivo entre duas pessoas, o desejo de posse se converte em um impulso de aniquilamento: só a morte é capaz de silenciar o incômodo pela existência do outro. Não há como sair à procura de razoabilidade para esse desejo de morte entre ex-casais, pois seu sentido não está apenas nos indivíduos e em suas histórias passionais, mas em uma matriz cultural que tolera a desigualdade entre homens e mulheres. Tentar explicar o crime passional por particularidades dos conflitos é simplesmente dar sentido a algo que se recusa à razão. Não foi o aborto não realizado por Eliza, não foi o anúncio de que o filho de Eliza era de Bruno, nem foi o vídeo distribuído no YouTube o que provocou a ira de Bruno. O ódio é latente como um atributo dos homens violentos em seus encontros afetivos e sexuais.

Como em outras histórias de crimes passionais, o final trágico de Eliza estava anunciado como uma profecia autorrealizadora. Em um vídeo disponível na internet, Eliza descreve os comportamentos violentos de Bruno, anuncia seus temores, repete a frase que centenas de mulheres em relacionamentos violentos já pronunciaram: “Eu não sei do que ele é capaz”. Elas temem seus companheiros, mas não conseguem escapar desse enredo perverso de sedução. A pergunta óbvia é: por que elas se mantêm nos relacionamentos se temem a violência? Por que, jovem e bonita, Eliza não foi capaz de escapar de suas investidas amorosas? Por que centenas de mulheres anônimas vítimas de violência, antes da Lei Maria da Penha, procuravam as delegacias para retirar a queixa contra seus companheiros? Que compaixão feminina é essa que toleraria viver sob a ameaça de agressão e violência? Haveria mulheres que teriam prazer nesse jogo violento?

Não se trata de compaixão nem de masoquismo das mulheres. A resposta é muito mais complexa do que qualquer estudo de sociologia de gênero ou de psicologia das práticas afetivas poderia demonstrar. Bruno e outros homens violentos são indivíduos comuns, trabalhadores, esportistas, pais de família, bons filhos e cidadãos cumpridores de seus deveres. Esporadicamente, eles agridem suas mulheres. Como Eliza, outras mulheres vítimas de violência lidam com essa complexidade de seus companheiros: homens que ora são amantes, cuidadores e provedores, ora são violentos e aterrorizantes. O difícil para todas elas é discernir que a violência não é parte necessária da complexidade humana, e muito menos dos pactos afetivos e sexuais. É possível haver relacionamentos amorosos sem passionalidade e violência. É possível viver com homens amantes, cuidadores e provedores, porém pacíficos. A violência não é constitutiva da natureza masculina, mas sim um dispositivo cultural de uma sociedade patriarcal que reduz os corpos das mulheres a objetos de prazer e consumo dos homens.

A violência conjugal é muito mais comum do que se imagina. Não foi por acaso que, quando interpelado sobre um caso de violência de outro jogador de seu clube de futebol, Bruno rebateu: “Qual de vocês que é casado não discutiu, que não saiu na mão com a mulher, né cara? Não tem jeito. Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Há pelo menos dois equívocos nessa compreensão estreita sobre a ordem social. O primeiro é que nem todos os homens agridem suas companheiras. Embora a violência de gênero seja um fenômeno universal, não é uma prática de todos os homens. O segundo, e mais importante, é que a vida privada não é um espaço sacralizado e distante das regras de civilidade e justiça. O Estado tem o direito e o dever de atuar para garantir a igualdade entre homens e mulheres, seja na casa ou na rua. A Lei Maria da Penha é a resposta mais sistemática e eficiente que o Estado brasileiro já deu para romper com essa complexidade da violência de gênero.

Infelizmente, Eliza Samudio está morta. Morreu torturada e certamente consciente de quem eram seus algozes. O sofrimento de Eliza nos provoca espanto. A surpresa pelo absurdo dessa dor tem que ser capaz de nos mover para a mudança de padrões sociais injustos. O modelo patriarcal é uma das explicações para o fenômeno da violência contra a mulher, pois a reduz a objeto de posse e prazer dos homens. Bruno não é louco, apenas corporifica essa ordem social perversa.

Outra hipótese de compreensão do fenômeno é a persistência da impunidade à violência de gênero. A impunidade facilita o surgimento das redes de proteção aos agressores e enfraquece nossa sensibilidade à dor das vítimas. A aplicação do castigo aos agressores não é suficiente para modificar os padrões culturais de opressão, mas indica que modelo de sociedade queremos para garantir a vida das mulheres.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=34220

Maternidade – o que é óbvio e o que não é

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Dia das mães – junto com ele chega uma enxurrada de comerciais com frases mais que batidas “Mãe – amor incondicional” ou “Homenagem aquela que fez tudo por você” e outras coisas do tipo. Não bastasse isso, não param de pipocar e-mails, scrapts e tweets com frases que lembram o quanto ser mãe é a maior realização da vida de uma mulher. Bom, não duvido que muitas mulheres encontrem na maternidade uma grande realização. Muito menos quero reduzir o sentimento envolvido nisso, pois acho que as formas de realização são muitas e todas as mulheres têm o direito de decidir sobre como pretendem obter realização pessoal.

No entanto, questiono se somos mesmo livres para determinar de que forma nos realizaremos. Tenho observado, nos últimos tempos, um pensamento pós-feminista que parece indicar que as mulheres já conquistaram tudo que desejavam, já quebraram todas as barreiras e agora estariam retornando por livre e espontânea vontade ao seu papel fundamental – ser mãe. Já observaram como as mulheres que trabalham, são independentes financeiramente, solteiras e etc são retratadas? Normalmente como pessoas solitárias que se endureceram e que o mundo sente pena, pois só quando elas retornarem as suas matrizes, a essência feminina e ouvirem o chamado dos instintos é que poderiam ser felizes e…enfim… cumprir o divino papel de ser mãe. Acho isso uma grande bobagem.

Na minha percepção, a escolha ou recusa da maternidade continua a ser crucial na luta pela emancipação das mulheres. Acho que é preciso pensar a maternidade não como uma determinação biológica, mas como uma construção social. Isso é necessário para compreender as relações de poder entre os sexos e as desigualdades de gênero, por isso acredito que é preciso – sim – politizar as questões privadas, pois a organização familiar a que estamos adaptadas (onde as mulheres seriam responsáveis pelo cuidado com a família e os homens por garantirem o sustento material) foi responsável por afastar as mulheres da vida pública. Como uma mulher que precisava se dedicar aos cuidados com o lar, com @s filh@s, com @s doentes poderia ter disponibilidade para atuar na esfera pública? Não estou propondo que as mulheres deixem de parir e se dediquem a vida pública, mas que papéis cristalizados sejam repensados.

Uma mulher ter disponibilidade biológica para gerar uma vida é uma coisa, mas exercer o papel materno – tal como foi designado socialmente – é outra coisa. Ser mãe é mais que colocar uma criança no mundo, pois implica em desempenhar uma série de comportamentos sociais. A maternidade – pensada como sinônimo de doação, cuidado e amor incondicional -, é antes um conceito histórico, político e culturalmente construído do que um fenômeno biológico. Não acredito que esse papel social foi atribuído às mulheres por serem mais afetuosas, generosas, habilidosas e responsáveis do que os homens – como os discursos essencialistas sobre as mulheres costumam sugerir. Não acredito que só pelo fato de ser mulher posso exercer o papel materno melhor que um homem. Na minha percepção, o que existe é uma grande matriz discursiva que nos induz a acreditar que uma mulher só é completa quando é mãe, pois esse papel lhe foi atribuído por um instinto ou mesmo uma força divina. É operando nessa matriz discursiva que a sociedade considera ultrajante uma mulher interromper uma gravidez indesejada. O aborto é visto como um desafio à natureza, um desafio à ordem social e um grande desdém com a providência divina. Da mesma forma, a escolha de não engravidar é também associada à secura, a esterilidade e a impossibilidade de amar e não como uma escolha consciente de uma mulher que sabe o que deseja. Por isso, espero que consigamos caminhar para uma ressignificação da maternidade repensando aí a organização familiar. Esse é um debate necessário no momento em que novos modelos familiares estão emergindo, pois as mulheres que sustentam a onda familiar sozinhas, os homens que fazem o mesmo, os casais formados por pessoas do mesmo sexo e outras ordens familiares mais que possam surgir, merecem que a sociedade consiga ler a maternidade para além do óbvio.