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Sobre fogueiras midiáticas

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Sobre fogueiras midiáticas

Somos todas clandestinas!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma onda moralista, promovida pelos setores mais reacionários da sociedade, tem pautado de forma assustadora o discurso dos presidenciáveis. No centro do debate está a legalização do aborto. Se bem que debate não é a palavra certa, pois o que está acontecendo parece mais uma histeria coletiva. Nunca vi tanto conservadorismo cuspido na cara como agora.

Inspirado pelo clima da caça às bruxas um programa sensacionalista local fez uma daquelas “reportagens investigativas” e estourou uma clínica de aborto em Fortaleza, na última semana. Eu não acreditava que estava vendo aquilo na televisão. O apresentador enfurecido chamava as mulheres de assassinas cruéis enquanto passava um clipe no qual armas eram apontadas para as cabeças de lindas criancinhas (brancas e loiras – claro). O apresentador pedia punição para as assassinas de bebês. Espetáculo dantesco que joga na nossa cara o quanto é difícil fazer uma discussão séria sobre o aborto com todo o peso das crenças religiosas e do patriarcado sobre nossas cabeças.

A tarefa de reproduzir ainda é vista como um destino para as mulheres e aquelas que decidem assumir poder sobre seu próprio corpo só possuem como alternativa a clandestinidade. Embora eu concorde que a legalização do aborto é uma questão de saúde pública, não resumo a isso. Fosse assim, os números assustadores de mortes em decorrência de abortos inseguros seriam suficientes para que a sociedade fizesse uma opção pela legalização. No entanto, é a autonomia das mulheres e o direito de exercer poder sobre seus próprios corpos que precisa ser debatido, mas isso é muito ameaçador nesse momento, né?

Bom, aproveito para reproduzir aqui a nota pública com o posicionamento dos movimentos de mulheres do Ceará em relação à repugnante matéria da TV Cidade (retransmissora da Record no Ceará).

NOTA PÚBLICA

Nós, movimentos de mulheres do Ceará, manifestamos nosso repúdio à forma como a TV Cidade abordou o tema do aborto em matéria veiculada no programa CIDADE 190 do dia 07/10/2010. A matéria aborda, de forma sensacionalista e desrespeitosa , o tema do aborto, sem considerar a realidade das mulheres que, por diferentes razões, precisam a este recorrer. A forma tendenciosa e apelativa com que a questão foi tratada fere os princípios jornalísticos, não permitindo o confronto de idéias, não ouvindo as opiniões divergentes das expostas na matéria, criminalizando as mulheres e impedindo assim o debate democrático – condição básica para um veículo que é uma concessão pública.

O Programa Cidade 190 coloca-se como de prestação de serviços e um canal de denúncia dos problemas da comunidade e das dificuldades que atingem a população mais pobre, mas a postura tem sido outra, evidenciada na forma com tratou a questão do aborto, que afeta diretamente a vida das mulheres, sobretudo das mais pobres, de forma descomprometida com a realidade destas.

Por ser um serviço público, a informação divulgada pelos veículos de comunicação de rádio e TV precisa refletir a pluralidade de opiniões, respeitando as diferenças econômicas, políticas, sociais, de religião, de gênero, de raça, de orientação sexual, de condição física do nosso povo. Mas, da forma como a questão do aborto foi exposta, não contribui para a reflexão e o debate sobre o tema, pois não contextualiza os diversos fatores que envolvem a situação do aborto no Brasil; apenas explora os sentimentos das pessoas de forma grotesca.

O direito ao aborto é defendido internacionalmente como questão de saúde pública em deliberação da Organização Mundial de Saúde (OMS) e foi aprovado nas duas Conferências de Políticas para Mulheres, na Conferência Nacional de Direitos Humanos, na Conferência Nacional de Juventude, na Conferência Nacional de Igualdade Racial e Étnica e Conferência Nacional LGBTT.

Isso significa que o tema precisa ser abordado a partir de muitas questões, entre estas, as centenas de morte de mulheres, os milhares de atendimentos nos hospitais públicos daquelas a quem só resta o uso de métodos inseguros e o risco de morte e as centenas de milhares de casos que sequer chegam ao conhecimento público.

O aborto diz respeito às violências cotidianas que as mulheres e meninas enfrentam no estupro e no abandono tanto dos homens quanto das instituições públicas. Diz respeito à necessidade de reconhecer as mulheres como eticamente capazes de decidir sobre suas vidas. Diz respeito aos direitos humanos e autonomia das mulheres. Diz respeito à justiça social, pois são as mais pobres que estão sujeitas a morrer, a serem maltratadas nos hospitais ou presas. Diz respeito ainda à construção democrática do debate e das decisões sobre as políticas públicas. É devido à ilegalidade do aborto e a criminalização das mulheres que surgem as clínicas clandestinas. Elas são reflexos das negações do direito das mulheres de decidir sobre suas vidas.

A forma como a TV Cidade tratou o tema é um desserviço ao debate democrático, pois não permite a diversidade de opiniões e impõe um pensamento único. Por isso, se faz necessário que essa televisão resgata os princípios democráticos do jornalismo e trate a questão do aborto com a seriedade e complexidade que ela exige. Caso contrário, continuará reafirmando um modelo de sociedade e de mídia que nega a possibilidade de um debate que estabeleça a real cidadania.

Nenhuma mulher deve ser presa, maltratada, humilhada ou morta por praticar aborto!

Pela não criminalização das mulheres e pela legalização do aborto!

Crime passional não existe

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Estava com muita vontade de escrever sobre um conceito que me causa incômodo – o tal do “crime passional”. Acho que existe um grande equívoco nessa expressão que, de tão repetida, já se sedimentou na subjetividade coletiva. É preciso estranhar as palavras, pois elas dizem muito sobre o que pensamos enquanto sociedade. Não, as palavras não são gratuitas! Embora muitos queiram nos fazer acreditar nisso. Infelizmente, estou absolutamente sem tempo para escrever agora, mas deixo aqui um excelente texto de Maíra Kubik Mano “Crime passional não existe” que foi indicado em “Sugestões de leitura” por Cynthia Semíramis. Prometo que, em breve, contribuirei com esse debate também.

Crime passional não existe

Cá entre nós, crime passional tem um quê de romantismo, não? Quando usamos essa expressão, geralmente é para nos referirmos a alguém que estava tão apaixonado, mas tão apaixonado que acabou cometendo um assassinato.  Ah, o amor… mexe com a cabeça dos homens, deixa eles loucos de ciúme. Como culpá-los? Sempre tão racionais e, de repente, vem uma mulher e bagunça tudo.

Não, eu não acredito nas linhas acima que, ironicamente, acabei de escrever. Mas é assim que muitas pessoas vêem esse tipo de situação: dentro de um contexto quase idílico e idealizado. Quase perdoável.

Para além da absurda falta de reconhecimento da violência sofrida pelas vítimas, uma das responsáveis por essa percepção é a mídia, que insiste em divulgar crimes de gênero como arroubos de paixão.

Dois exemplos recentes são o desaparecimento de Eliza Samudio e o assassinato da advogada Mércia Nakashima. Ambas podem ter sido mortas por seus ex-namorados – no primeiro caso, estamos nos referindo a uma celebridade dos gramados, o goleiro Bruno, do Flamengo; no segundo, a um policial aposentado – mas apesar da cobertura excepcional da imprensa, que dá atenção praticamente diária a cada passo das investigações, a questão é pouco discutida.

A mídia em geral peca pela descontextualização da notícia, mas no caso de crimes como esse a omissão é espantosa. Como não dizer, por exemplo, que a cada quinze segundos – mais ou menos o tempo que você vai levar lendo esse post – uma mulher é espancada no Brasil? E pior: que a maioria dos agressores, 87%, é o atual ou um antigo marido/namorado?

Da forma como a notícia é dada, parece que estamos falando de questões isoladas, de uma relação que fracassou de forma retumbante. A verdade, porém, é que atitudes como essa ganham os jornais todas as semanas, mesmo que seja em uma nota de pé de página.

Não há nada de romântico em ser esquartejada, ou sufocada até a morte, ou executada com um tiro na cabeça, ou eletrocutada. Muito menos por alguém que supostamente deveria te amar. Crime passional não existe, temos que parar de usar essa expressão.

Por Maíra Kubik Mano