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Nenhum minuto de silêncio #RemocoesNao #PareBeloMonte

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O grupo do #EBlog acordou uma blogagem coletiva, nos dias 29 e 30, para contribuir com o debate sobre as remoções ocasionadas pelos megaeventos como a Copa de 2014 e por mega-projetos como a Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Como sempre faço antes de escrever, fui procurar o que já foi produzido sobre o assunto e o que está circulando na blogosfera. Achei interessante encontrar boa quantidade de material (inclusive colocarei os links no final do post). Muita gente já escreveu sobre o assunto, além disso, existem pequenos vídeos, cartilhas e outros documentos circulando. Depois de passear por esses registros, fiquei me perguntando o que eu poderia escrever que não fosse repetição de tudo que já foi dito? O que eu poderia dizer de novo? Sinceramente, não sei, por isso tive dificuldade de escrever e decidi falar sobre os meus sentimentos e impressões.

Na época que o Brasil foi eleito o país sede da Copa, discuti com muita gente, pessoalmente e via redes sociais, por ter a audácia de dizer que era uma pena, uma tristeza, pois uma tragédia anunciada estava se formando no horizonte. Disseram que eu era dessas pessoas que torcem pelo “quanto pior melhor”. Que isso era coisa de “esquerdista” revoltado que desejava o mal do país só para não ver o digníssimo presidente em momento de glória por ser “o cara” que colocou o país no futuro e trouxe a Copa para o Brasil. Recebi críticas de tantos lados que cheguei mesmo – juro que cheguei – a me perguntar se havia alguma mesquinharia na minha tristeza com a notícia de que o Brasil seria mesmo a sede e que – pior – Fortaleza seria uma das cidades a receber os jogos. Há pouco mais de uma semana, estive numa assembléia popular da comunidade Trilha do Senhor, uma das que estão na lista de remoções para a construção do VLT*, e foi nesse encontro que pude sentir mais fortemente que há mais razões para lamentar que para comemorar a vinda da Copa do Mundo. O discurso alardeado, que enganou/engana muita gente, de que os megaeventos são grandes oportunidades de transformação e melhorias para as cidades-sedes se desintegra como areia fofa diante da fala de qualquer morador/a que exponha a violência com a qual estão sendo tratad@s para que sejam realizadas as obras necessárias. Obras estas que vejo como miçangas e espelhinhos balançados para a população das cidades sob o argumento de que “graças a Copa”, finalmente, as cidades vão receber. Fico me perguntando se é mesmo muito difícil perceber o absurdo que é essa “troca”? Projetos urbanísticos de melhoria dos transportes, habitação, lazer, cultura, saneamento que são obrigações do Estado, de repente, passam a ser usados como “canto de sereia” para que a população aceite o processo de privatização dos lucros e socialização dos custos ocasionados pelos megaeventos. Além disso, o enaltecimento de um sentimento de patriotismo e orgulho é usado a exaustão para que as pessoas acreditem que tudo pode e deve ser feito em nome do sucesso do evento para os olhos do mundo.

A publicidade governamental que ressalta um certo orgulho patriótico e enaltece a identidade local, relacionando-os ao “sucesso” do evento no imaginário coletivo, se faz essencial para garantir os objetivos traçados pelos organizadores (OLIVEIRA, 2009), criando terreno fértil para escamotear ações violentas e de apropriação privada do patrimônio público. Esta característica esteve claramente presente ao longo dos meses que antecederam os Jogos Pan-americanos e agora volta à tona com a recente escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, como pôde ser observado na divulgação de material promocional, na ampla difusão de propaganda nos meios de comunicação, e até mesmo na realização de grande evento na praia de Copacabana para acompanhar e comemorar a escolha da cidade-candidata vencedora, em outubro de 2009. (Erick Silva Omena de Melo e Christopher Gaffney)

Desse modo, tudo vira parte de um grande espetáculo empreendido sob um verdadeiro estado de exceção. Direitos Humanos são sistematicamente violados em nome de uma suposta causa maior. Os megaeventos são para os governos e as elites uma excelente “desculpa” para avançar em processos violentos de intervenção urbana que aprofundam a segregação sócio-espacial das cidades. Dão a tônica que faltava para justificar a expulsão de comunidades pobres de áreas que são importantes para a especulação imobiliária e que de outra forma não receberiam apoio popular.

Desse modo, as intervenções seguem a revelia do direito das pessoas de dizer o que é melhor para a cidade em que elas vivem. A população não precisa mais ser ouvida, afinal, algo muito maior está em jogo. Essa é a lógica de todos os processos violentos de remoção. O mesmo acontece com os povos do Xingu. Quem precisa ouvir quem mora naquela terra quando todo mundo acredita que algo muito mais importante está em jogo? A energia é importante para a maioria, portanto, para que escutar as populações afetadas? É esse o calculo feito pelo atual modelo de desenvolvimento. No caso das remoções nas cidades ocorre o mesmo. Pra que ouvir esse povo? Um povo que muitas vezes vive em áreas privilegiadas baixando o preço de imóveis luxuosos com os quais dividem espaço. Em Fortaleza, por exemplo, a comunidade que citei anteriormente, Trilha do Senhor, está localizada numa das regiões mais nobres de Fortaleza. Não é só para construir o VLT que essa população será removida, mas para fazer “limpeza” social na área que passará a ser muito mais valorizada. Mas ninguém pergunta para onde essa população vai depois de ser despejada, pois o plano só prevê pagamento de indenizações pífias que não garantem que essas pessoas consigam comprar imóveis equivalentes aos que viviam e muito menos em área similar. Incrivelmente, ao invés da suposta melhoria urbana das cidades, o que os megaeventos deixarão de legado será o agravamento do processo de favelização.

Cacique Raoni chora ao saber da liberação para início da construções de Belo Monte.

Como falei no início do texto, não gostaria de ser redundante e repetir todas essas coisas que muitos de nós já sabemos, mas que a maioria aceita resignadamente, afinal, é “assim que gira o mundo”.  Recuso-me a aceitar que vamos ficar de braços cruzados diante da dor dos outros. Che Guevara dizia que ser solidário é correr o mesmo risco, acho linda essa reflexão, mas é tarefa árdua. Como podemos correr o mesmo risco se estamos em “lugares” distintos? Por mais que possamos nos deslocar para compreender a dor dessas pessoas que estão com suas vidas e história ameaçadas, não corremos os mesmo riscos e talvez resida aí a dificuldade de colocar nossos corpos nessas lutas. Por isso, precisamos criar pontes. Precisamos ouvir essas pessoas e tentar fazer com que o mundo as escute também. Existe todo um aparato social e midiático construído para fazer parecer que elas não existem ou que nada fazem. O que não é verdade. Milhares de pessoas estão organizadas no sentido de resistir à degradação de suas histórias e seu direito de ser o que são, mas existe, em paralelo a isso, uma ideia hegemônica e enormemente propagada que insiste em jogar essas resistências sob o estigma do atraso. É o mito do desenvolvimento que rotula todos os povos que estão fora do esquema do capital e sua modernização homogênea como “entraves”. É justamente nesse ponto que precisamos intervir. Precisamos contribuir com a descolonização do pensamento. Passo fundamental para isso é reconhecer que existem resistências ao modelo imposto e contribuir com a sua propagação. Num mundo verdadeiramente plural não existe apenas um modo de viver. Por isso, precisamos ser obstinados no sentido de colocar nossos corpos, almas, ouvidos e vozes disponíveis para todos os povos que lutam pelo direito à auto-determinação e pela manutenção de seus modos de ser e existir. Não é tarefa fácil. Vez ou outra bate mesmo um sentimento de desânimo e nos sentimos tão pequenos diante de toda essa complexidade e incerteza. Continuo sem ter respostas sobre qual a melhor forma de construir aquelas pontes sobre as quais falei, mas aprendi que tem coisas na vida que só aprendemos fazendo. Caminhar é um exemplo. Por isso, vamos caminhando SEM fazer nenhum minuto de silêncio.  

* VLT – Veículo Leve sob Trilhos é uma espécie de metrô de superfície urbano de passageiros que está previsto para ser construído em Fortaleza, como parte das obras para receber a Copa de 2014, promovendo a remoção de mais de 4mil famílias.

Links para os #EBlogs

O Inferno de Dandi: O Brasil faz a Copa, mas como fica a Cozinha?
Blog do Tsavkko – The Angry Brazilian: Um país sem qualidade: PAC, PNBL e ProUni #PareBeloMonte
Desenvolvimentismo ou capitalismo?

Outros links importantes

Desalojamentos forçados em BH para Copa do Mundo? não…
ONU denuncia violação de direitos humanos na remoção de famílias para obras da Copa do Mundo de 2014
Copa 2014: comunidades se mobilizam contra políticas de remoções no RJ
Moradores dizem não às remoções para a Copa
Carta de apresentação do Comitê Popular da Copa (Fortaleza)
Conheça o guia e a cartilha sobre remoções forçadas
ENTREVISTA RAQUEL ROLNIK: Relatora expõe a sua visão sobre os problemas urbanos, em especial o da moradia, e relata que tem recebido muitas denúncias de despejos violentos.
ENTREVISTA CARLOS VAINER: Professor do IPPUR/UFRJ avalia que os megaeventos esportivos estão relacionados a um novo modelo de planejamento urbano em que a realização de negócios prevalece aos interesses do conjunto da população.
EXPERIÊNCIA INDIANA: Assista ao vídeo sobre os Commonwealth Games realizados este ano em Nova Delhi, na Índia, com depoimentos de Miloon Kothari e Shivani Chaudhry, ambos da Housing and Land Rights Network (preparado especialmente para o seminário “Impactos urbanos e violações de direitos humanos em megaeventos esportivos”, realizado em novembro, em São Paulo).
Jornal britânico Guardian denuncia as remoções para a Copa do Mundo
Protesto reúne desalojados por obras da Copa 2014
Belo Monte: “No limite da irresponsabilidade”
Megaeventos e a negação da participação popular