Maternidade – o que é óbvio e o que não é

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Dia das mães – junto com ele chega uma enxurrada de comerciais com frases mais que batidas “Mãe – amor incondicional” ou “Homenagem aquela que fez tudo por você” e outras coisas do tipo. Não bastasse isso, não param de pipocar e-mails, scrapts e tweets com frases que lembram o quanto ser mãe é a maior realização da vida de uma mulher. Bom, não duvido que muitas mulheres encontrem na maternidade uma grande realização. Muito menos quero reduzir o sentimento envolvido nisso, pois acho que as formas de realização são muitas e todas as mulheres têm o direito de decidir sobre como pretendem obter realização pessoal.

No entanto, questiono se somos mesmo livres para determinar de que forma nos realizaremos. Tenho observado, nos últimos tempos, um pensamento pós-feminista que parece indicar que as mulheres já conquistaram tudo que desejavam, já quebraram todas as barreiras e agora estariam retornando por livre e espontânea vontade ao seu papel fundamental – ser mãe. Já observaram como as mulheres que trabalham, são independentes financeiramente, solteiras e etc são retratadas? Normalmente como pessoas solitárias que se endureceram e que o mundo sente pena, pois só quando elas retornarem as suas matrizes, a essência feminina e ouvirem o chamado dos instintos é que poderiam ser felizes e…enfim… cumprir o divino papel de ser mãe. Acho isso uma grande bobagem.

Na minha percepção, a escolha ou recusa da maternidade continua a ser crucial na luta pela emancipação das mulheres. Acho que é preciso pensar a maternidade não como uma determinação biológica, mas como uma construção social. Isso é necessário para compreender as relações de poder entre os sexos e as desigualdades de gênero, por isso acredito que é preciso – sim – politizar as questões privadas, pois a organização familiar a que estamos adaptadas (onde as mulheres seriam responsáveis pelo cuidado com a família e os homens por garantirem o sustento material) foi responsável por afastar as mulheres da vida pública. Como uma mulher que precisava se dedicar aos cuidados com o lar, com @s filh@s, com @s doentes poderia ter disponibilidade para atuar na esfera pública? Não estou propondo que as mulheres deixem de parir e se dediquem a vida pública, mas que papéis cristalizados sejam repensados.

Uma mulher ter disponibilidade biológica para gerar uma vida é uma coisa, mas exercer o papel materno – tal como foi designado socialmente – é outra coisa. Ser mãe é mais que colocar uma criança no mundo, pois implica em desempenhar uma série de comportamentos sociais. A maternidade – pensada como sinônimo de doação, cuidado e amor incondicional -, é antes um conceito histórico, político e culturalmente construído do que um fenômeno biológico. Não acredito que esse papel social foi atribuído às mulheres por serem mais afetuosas, generosas, habilidosas e responsáveis do que os homens – como os discursos essencialistas sobre as mulheres costumam sugerir. Não acredito que só pelo fato de ser mulher posso exercer o papel materno melhor que um homem. Na minha percepção, o que existe é uma grande matriz discursiva que nos induz a acreditar que uma mulher só é completa quando é mãe, pois esse papel lhe foi atribuído por um instinto ou mesmo uma força divina. É operando nessa matriz discursiva que a sociedade considera ultrajante uma mulher interromper uma gravidez indesejada. O aborto é visto como um desafio à natureza, um desafio à ordem social e um grande desdém com a providência divina. Da mesma forma, a escolha de não engravidar é também associada à secura, a esterilidade e a impossibilidade de amar e não como uma escolha consciente de uma mulher que sabe o que deseja. Por isso, espero que consigamos caminhar para uma ressignificação da maternidade repensando aí a organização familiar. Esse é um debate necessário no momento em que novos modelos familiares estão emergindo, pois as mulheres que sustentam a onda familiar sozinhas, os homens que fazem o mesmo, os casais formados por pessoas do mesmo sexo e outras ordens familiares mais que possam surgir, merecem que a sociedade consiga ler a maternidade para além do óbvio.

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  1. Na contramão do que se pensa e fala, costumo dizer que estabelecer papéis para as mulheres e, consequentemente, para homens, é uma violência – talvez light, mas nem por isto menos indesejável.
    O mesmo sexismo que estabelece às mulheres a maternidade e os cuidados com a família como seus papéis naturais, exclui os homens da possibilidade de exercê-los.
    Quantos deixam de acompanhar as esposas em todos os pre-natais? Quantos deixam de dizer ‘não’ ao trabalho para levar os filhos ao médico e acompanhar o seu crescimento? Quantos deixam ter algumas horas a mais junto com a esposa e a família por se recusar a aprender e a compartilhar o trabalho doméstico?
    O estabelecimento de papéis sexistas é castrante, cruel e produtor de pessoas infelizes.
    O seu artigo, Mayara, não poderia ter sido escrito em data melhor. É impossível lê-lo e não lembrar dos comerciais para os dias das mães com seus eletrodomésticos em promoção (a maioria, ferros, fogões, liquidificadores, etc.).

  2. Lindo texto… Trabalhei como professor em uma escola particular em uma região “nobre” de sampa..tinha uma sala com 10 anjos de 4 e 5 anos…. Quando os pais souberam que havia um “TIO” em sala entraram em desespero. Segundo a diretora, a primeira preocupação era “se eu era realmente homem”. Em seguida, “como pode um homem cuidar de crianças?”…

    Qualquer incidente era consequencia da verdade absoluta: homens não servem pra cuidar de crianças…. COncordo com o elias.. este sexismo é castrante…

    E o seui texto é extremamente lúcido, propondo um rompimento com as construções sociais que delimitaram os papéis… Não vi nele o teor de ódio aos homens que vejo na maior parte dos textos feministas….PArabens…

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