NOTA DE REPÚDIO AO TROTE RACISTA E SEXISTA NA FACULDADE DE DIREITO DA UFMG

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A Humanidade, se fosse uma pessoa, envergonhar-se-ia de muita coisa de seu passado; passado este que contém muitos episódios verdadeiramente abjetos. Enquanto humanos, faríamos minucioso inventário moral de nós mesmos; enquanto partícipes do que convencionamos chamar ‘Humanidade’, relacionaríamos todos os grupos ou pessoas que por nossas ações e omissões prejudicamos e nos disporíamos a reparar os danos a eles causados.

Vigiaríamos a nós mesmos, o tempo todo, para que individualmente e enquanto grupo, não repetíssemos nossos vergonhosos e documentados erros. Pais conscienciosos, ensinaríamos as novas gerações os novos e relevantes valores morais que tem de pautar nossas condutas, palavras e intenções.

Dois desses episódios, chagas profundas e fétidas de nosso passado humano, são a escravidão e o nazismo. No primeiro, tratamos outros seres humanos como inferiores; os açoitamos; os forçamos ao trabalho; os ridicularizamos (dizendo que eles eram feios, sujos, burros, seres humanos mal acabados e não evoluídos); procuramos destruir seus laços com a terra amada, sua cultura, sua língua; dissemos que eles não tinham alma enfim. No segundo não era diferente; mesmas ações, alvos expandidos: pessoas negras, judeus, homossexuais. Todos tratados com o mesmo desrespeito.

O tempo passou e como as chagas permanessem, fizemos um meio-trabalho: criamos leis. Leis como a 7.176/89, que qualifica o crime de racismo e depois a Lei 9.459/97 (que inclui o parágrafo 1 no artigo 20 da já referida Lei 7.176/89, mencionando a fabricação e uso de símbolos nazistas). Infelizmente, nem mesmo a força da lei tem sido suficiente.

O que vemos é, em toda parte, ressurgirem graves violações dos Direitos Humanos outrora perpetradoss. O que seria motivo de vergonha vem ganhando o espaços públicos, por meio de recursos custeados pelo Estado; um Estado que se auto declara ‘Democrático de Direito’; um Estado que tem como fundamento a DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (inciso III do artigo 1 da Constituição de 1988).

Sim, foi isso mesmo o que você leu: na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alunos do curso de Direito (sim, um curso cujo objetivo é formar profissionais que serão essenciais à Justiça e à defesa desse propalado Estado Democrático de Direito) fizeram um trote onde, sob a desculpa de fazer piada usaram saudações nazistas e representações racistas e sexistas.

A notícia, amplamente divulgada na mídia, vocês podem ler clicando aqui.

Mas não é só: infelizmente nesses últimos meses, tomamos contato com episódios igualmente repulsivos ocorridos em universidades: na Politécnica (Faculdade da Universidade de São Paulo, também mantida com recursos públicos), vimos alunos divulgarem uma gincana, onde uma das ‘provas’ era algo cometer assédio sexual.

Confira na Feminista cansada e no Estadão.

E isso logo após alunos de uma outra Universidade (também da USP, na cidade de São Carlos), agredirem manifestantes que criticavam um trote que vilipendiava a imagem feminina.

Todas essas condutas, perpetradas por alunos que deveriam estar recebendo instruções aptas a torná-los profissionais e cidadãos mais éticos (afinal, é para isso que todos os cursos contém em suas grades a matéria denominada ‘Ética’), mostram que beiramos a um perigoso retrocesso no quesito ‘Direitos Humanos’.

Sendo os Direitos Humanos imprescritíveis, inalienáveis, irrenunciáveis, invioláveis e universais, efetivos e interdependentes, não pode haver NENHUMA tolerância a qualquer ato ou gesto que os ameaçem.

E é por isso e também por tais atos (perpetrados nas três universidades citadas) constituirem verdadeiro incentivo à propagação de discursos preconceituosos e de ódio, é que os coletivos assinam a presente nota de repúdio, esperando que autoridades constituídas tomem as providências cabíveis para apenar exemplarmente os responsáveis. Leis para isso já existem; mas para que os direitos ganhem efetividade é preciso sua aplicação.

Esperamos também que as pessoas que lerem a presente também façam um reflexão sobre o rumo que nossa Sociedade está tomando. Não queremos o retrocesso. E se você compartilha conosco desse sentimento, dessa vontade de colaborar com a construção de uma Sociedade melhor, não se cale.

Nós somos negros; nós somos mulheres; nós somos gays; nós somos lésbicas; nós somos transsexuais; somos nordestinos; adeptos de religiões minoritárias. Somos as minorias que diuturnamente temos de conviver com o menoscabo de nossas imagens; com atos que naturalizam a violência; que criam verdadeira cisão entre Humanos; que reabrem as chagas e as fazem sangrar. E nós não vamos nos calar. O estandarte, escudo e espada emprestaremos da Themis, a deusa da justiça; usaremos a lei e exigiremos o seu cumprimento.

Aos estudantes de Direito que fizeram uma tal ‘brincadeira’repulsiva, lembramos:

‘Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus’ –
Onde não existe justiça não pode haver direito

Assinam o presente,

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• Café Primeiro e Problemas Depois
 Mayara Melo –  http://www.mayroses.wordpress.com

Mulheres indígenas – violência, opressão e resistência

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Através dos séculos nossa voz foi sufocada. Mas muitas vozes femininas ecoaram. Hoje o princípio da Terra, cujas sementes brotaram a partir das lágrimas de dor das mães, tias, avós e bisavós desse país se fazem presentes.

“Cunhã-Uasu Muacasáua – MULHERES FORTES E UNIDAS!”.

Hoje é o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher e escolhi destinar meu post à visibilidade das lutas por direito das mulheres indígenas. Quase sempre esquecidas nos debates sobre gênero, as mulheres indígenas são vítimas de graves violações de direito e são multiplamente ameaçadas pela discriminação de sexo, raça, etnia e classe social.

Segundo relatório da ONU, divulgado em 2010, uma em cada três índias é estuprada durante a vida. Isso deixa claro que as mulheres indígenas são mais vulneráveis a violência do que as demais. Numa sociedade patriarcal, que já coloca as mulheres em situação de desigualdade, o que dizer das mulheres indígenas que historicamente foram violentadas e massacradas pelos invasores? Que proteção essas mulheres possuem?

As mulheres indígenas são as mais gravemente afetadas pelo modelo de desenvolvimento econômico imposto no Brasil. São elas que sofrem de forma mais contundente os impactos provocados sobre o meio ambiente. Quando os indígenas perdem acesso aos recursos ambientais que garantem sua segurança e soberania alimentar, são as mulheres as mais penalizadas, pois geralmente são elas as responsáveis por cuidar da alimentação. Essa é uma característica comum a muitas comunidades tradicionais. Também são elas as mais impactadas pelas grandes obras que perturbam o modo de vida de suas comunidades. Com o inchaço das cidades próximas, o modo de vida e os costumes dos povos passam a ser profundamente impactados e isso acaba recaindo de modo violento sobre as mulheres. Basta chegar a qualquer canteiro de obra existente hoje, na Amazônia ou no Nordeste, para verificar o aumento dos casos de exploração sexual de crianças, jovens e mulheres, o aumento do consumo de álcool e bebidas alcóolicas. Sobre isso, organizações de mulheres indígenas já cobram medidas há bastante tempo. Como exemplo, temos o trecho retirado de um documento publicado pela organização de mulheres indígenas de Roraima:

Nós, mulheres indígenas, temos sido as principais vítimas das bebidas alcóolicas; somos agredidas, abusadas sexualmente, e vivemos sob ameaça das consequências da bebida alcoólica. Nossas comunidades já escreveram inúmeras cartas pedindo providências para a retirada dos bares que comercializam bebidas no interior das aldeias indígenas, mas até o momento não temos resultados em nossos pedidos. É a nossa vida que está em questão, e não podemos calar, mas cobrar. (Mulheres, 2006)

E ainda:

Cresce a violência contra os povos indígenas e suas lideranças. Neste cenário, destaca-se a grande vulnerabilidade, pelas várias formas de violência que as mulheres e as crianças indígenas sofrem: física, moral, psicológica, entre outras (Assembleia, 2007)

Índia da etnia sateré-mawé se coloca na frente da tropa de choque

Elas também são as maiores vítimas nos conflitos e massacres sofridos pelos povos indígenas, pois muitas vezes os agressores usam o estupro como arma de “desmoralização” desses povos. Além disso, também sofrem com a perda dos filhos e maridos perseguidos por posseiros, etc. É expressiva – embora nem sempre receba a devida visibilidade – a participação das mulheres indígenas nos movimentos e lutas pelo direito à terra e por isso são também frequentemente alvo de ataques.

Não bastassem as violações de direito que são frutos das intervenções da sociedade sobre o modo de vida dessas populações, também precisamos refletir sobre a violência sofrida pelas mulheres indígenas no seio de suas próprias comunidades. As indígenas reconhecem e  denunciam inúmeras práticas discriminatórias que sofrem: casamentos forçados, violência doméstica, estupros, limitações de acesso à terra, limitações para organização e participação política e outras formas de dificuldade enfrentadas em consequência do patriarcalismo presente em suas comunidades. Embora esse seja um campo delicado de tratar, devido ao enfoque específico e multicultural que precisa ser dado, é necessário ouvir o que as organizações de mulheres indígenas estão reivindicando. O Estado brasileiro não tem se mostrado interessado ou capaz de desenvolver estratégias específicas para o enfrentamento da violência contra mulheres indígenas, as ações são pulverizadas e não há nenhum programa oficial especificamente destinado a esse público. Dessa falta de políticas específicas e multiculturais surge uma questão “as nossas leis atendem as necessidades reais dessas mulheres?”. A Lei Maria da Penha já foi discutida em algumas ocasiões e encontros pelos movimentos de mulheres indígenas e sempre é alvo de muitas dúvidas e questionamentos. Além de debaterem as questões relativas às desigualdades de gênero em suas comunidades, as mulheres indígenas também querem fazer emergir o debate sobre o diálogo entre os parâmetros jurídicos estatais e não-estatais. A visão etnocêntrica, na qual se assenta nosso sistema jurídico, tem dificuldade em reconhecer outros sistemas de justiça. É como se o direito estabelecido pelas sociedades indígenas, nos termos de Boaventura de Sousa Santos, fossem “subtraídos do mundo”. Desse modo, o grande desafio é pensar em uma compatibilização entre o direito do Estado e os diversos direitos indígenas, considerando suas especificidades na busca de uma democracia intercultural.

Este post não tem a pretensão de oferecer respostas à problemática das mulheres indígenas ou mesmo fazer um apanhando das violações sofridas por elas, pois isso exigiria um texto muito mais amplo e uma pesquisa profunda, já que praticamente não existem dados sistematizados sobre o assunto. No entanto, tem como objetivo lembrar que essas mulheres existem e sofrem de forma ainda mais impactante as violações de direitos, que estão se organizando cada vez mais no sentido de lutar pelos seus direitos e que suas pautas precisam sair da invisibilidade. Acredito que a diversidade, a pluralidade, e interculturalidade sejam premissas para pensar políticas de igualdade de gênero e que esta seja uma pauta fundamental a ser trabalhada pelos movimentos feministas.

Recomendo a publicação do INESC “Mulheres Indígenas, Direitos e Políticas Públicas ” que traz quatro artigos sobre a questão de direitos no seio de comunidades indígenas, além de sistematizações de oficinas realizadas exclusivamente com mulheres indígenas. Os artigos debatem o movimento de mulheres, a efetividade da Lei Maria da Penha para as mulheres indígenas, entre outras questões. O link>> http://www.inesc.org.br/biblioteca/publicacoes/outras-publicacoes/LIVRO%20MULHERES%20INDIGENAS1.pdf

Cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias de espera…

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pois tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso quanto mais perto da morte.”

Não sou capaz de lembrar com precisão qual o primeiro livro que me fez chorar, seria exigir demais da minha memória emocional. No entanto, posso dizer qual o primeiro livro que me chega à memória quando penso em lágrimas: “O amor nos tempos do cólera”. Foi o primeiro livro do Gabriel García Márquez que li e que me fez adentrar em todas as demais obras dele (as que li – claro). Definitivamente, um autor que fala direto ao meu coração. A escrita de Gabriel é perfeita, doce e ácida ao mesmo tempo.

Não tenho certeza, mas acho que tinha 14 anos quando peguei esse livro, que surrupiei da minha irmã, apenas por curiosidade em relação ao título. Achava que não tinha nada a ver falar de amor no meio do cólera, por isso, paguei pra ver qual era. O resultado foi um encantamento profundo. Toda a atmosfera do livro é delirante e, por vezes, lembra um sonho ao qual fiz questão de me entregar completamente e chorei…chorei…chorei…lembro que uma noite dormi cansada de tanto chorar agarrada ao livro.

A história central é a espera de Florentino Ariza por Fermina Daza. Um amor que aguarda, angustiadamente, cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias para se concretizar. Essa é a história que conduz a narrativa, mas muitas outras se entrelaçam a ela. Todos os personagens são ricos e complexos e as tramas paralelas possuem uma força enorme. Mais importante do que a espera de Florentino é a trajetória dele. Florentino conhece Firmina ao entregar correspondências para seu pai e ambos passam a trocar cartas de amor por quase dois anos, até o dia que Florentino pede Firmina em casamento. Firmina aceita, mas pede que o amado a aguarde por mais dois anos. Próximo a data marcada, o pai da moça descobre o romance e, na perspectiva de separá-los, envia a filha para fora da cidade. No entanto, os enamorados continuam trocando cartas por mais dois longos anos. Quando Firmina retorna para a casa do pai, entra um novo personagem em cena. Juvenal, um jovem estudado e com todos os requisitos de bom marido, se apaixona pela moça e com ela se casa. Firmina casa sem amor, mas no decorrer da narrativa fica evidente que um amor profundo cresce entre os dois. Sinceramente, não sei a quem Firmina amou mais profundamente, se o marido ou Florentino. Da mesma forma, não é possível medir o amor de Florentino por ela, pois às vezes parece pura obsessão. Porém, a beleza do livro reside justamente aí, na incomensurabilidade dos sentimentos. Não são afetos certinhos e lógicos que cabem numa ordenação. São sentimentos complexos, profundos e contraditórios, o que o trecho a seguir evidencia:

“(…) com ela aprendeu Florentino Ariza o que já padecera muitas vezes sem saber: pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, por todas com a mesma dor, sem trair nenhuma. Solitário entre a multidão do cais, dissera a si mesmo com um toque de raiva:o coração tem mais quartos que uma pensão de putas.”

Acho que foi esse livro que me fez acreditar que o amor pode até durar para sempre, mas que nunca será um sentimento linear. O amor sofre mutações constantes e precisa disso para sobreviver.

 “Coisa bem diferente teria sido a vida para ambos se tivessem sabido a tempo que era mais fácil contornar as grandes catástrofes matrimoniais do que as misérias minúsculas de cada dia. Mas se alguma coisa haviam aprendido juntos era que a sabedoria nos chega quando já não serve para nada.” 

É lindo perceber as mutações das pessoas e dos sentimentos…

“… mas se deixou levar pela convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.”

E quanto tempo se pode esperar para descobrir o outro e a si mesmo. E quanto tempo se pode carregar uma paixão, um amor?

“- e até quando acredita o senhor que podemos continuar neste ir e vir do caralho? – perguntou.
florentino ariza tinha a resposta preparada havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.
– toda a vida – disse.”


Para quem se interessar pelo livro, segue aqui para download


Também estão participando da brincadeira a Niara de Oliveira do Pimenta com Limão, a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros, a Mayara do Mayroses e a Cláudia do Nem Tão Óbvio Assim. E tem mais a Fabiana Nascimento que posta em notas no seu perfil no Facebook.

Sonhando com deuses e deusas

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Tenho lembrança de alguns livros maravilhosos que li na infância, mas escolhi o que me carregou para inúmeras outras viagens literárias. Quando tinha 9 ou 10 anos, não sei precisar a idade exata, li “Ilíada” para o colégio. Lembro que fiquei completamente apaixonada pela mitologia grega. Era uma edição para crianças, claro, toda ilustradinha. Fiquei encantada pelos deuses e deusas do Olímpio. Como fui criada dentro da tradição católica – fiz primeira comunhão, crisma e tudo mais –, fiquei completamente maravilhada com aquela diversidade de deuses e deusas. Acho que comecei a questionar a religião que tentaram me empurrar nessa época mesmo. A história envolvendo deuses e deusas que, assim como os humanos, eram cheio de contradições mexeu demais comigo. Fui instigada a procurar mais e mais livros como “O destino de Perseu”, “Odisséia”, “Teseu e o minotauro”, entre outros.

No entanto, o mais emocionante foi descobrir a enciclopédia Barsa…rs . Pois é, lá em casa, havia uma coleção da Barsa para a qual eu nunca havia olhado. Depois que comecei a procurar livros sobre mitologia, e terminei de ler todos da biblioteca do colégio, resolvi partir para a enciclopédia. Eu procurava o nome de um dos personagens do livro e depois corria para ler todos os verbetes relacionados. Coloquei abaixo todos os volumes da enciclopédia empoeirada que ficava paradona numa prateleira esquecida da minha casa. Foi uma viagem maravilhosa. Fiquei até na dúvida se não seria a Barsa meu livro favorito da infância…rs. Mas antes de escrever o post, contei isso pra uma pessoa que disse que era muito nerd esse lance de enciclopédia…hahaha. Ok, mas não foi por isso que desisti da Barsa. A questão é que quem me levou a ela – e a muitos outros livros -, foi “Ilíada”. Não preciso fazer aqui a sinopse, né? Acho que todo mundo está careca de saber da história de Helena, do cavalo de tróia e tal….mas ilustrado é bem mais legal, gente. Não encontrei a capa do livro que li quando criança, mas vi que existe uma edição bem atual da Coleção “Reencontro Infantil” da editora Scipione composta de grandes clássicos da literatura mundial para crianças.

Link para conhecer a coleção da Scipione aqui

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Grito com reticências…

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A Dança de Matisse por Claudyo Casares*

Não sei qual direção tomei. Só sei que andei e…de repente…senti que estava no lugar errado. Voltei, mas percebi que perdi tempo ao desviar a rota. Fiquei dando voltas no vazio e a sensação de perder tempo aumentou. Sinto-me perseguida pelo tempo, embora seja eu que corra para não perdê-lo. Tenho vontade de gritar. Será que isso ocorre porque não sou cantora, poeta, atriz e nem ao menos toco um instrumento? Não tenho nenhum dom especial. Já que não posso transformar angústia em arte, só resta o grito ou o silêncio.  Não quero silenciar. Eu quero poder gritar que tenho o direito de ser…seja lá o que for. Quero ser eu, mas quero também ser outras. Muitos desejos, sonhos, lutas, mulheres, homens, vitórias e derrotas cabem em mim e tenho necessidade de viver todos eles. Queria saber que minha vida não é uma sucessão de escolhas que eliminam outras.

Deixa eu gritar! Deixa eu dizer que já não tenho mais lugar em mim. Deixa eu revelar que não sou poeta e que por isso tomo canções e poemas emprestados pra traduzir a mim mesma. Deixa eu usar os versos de Flor Bela Espanca, mais uma vez, pra dizer o que sinto…é isso…é precisamente isso: “o meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!”. Uma saudade enorme de tudo que ainda não conheço…de tudo que fui, sou ou serei. No fundo, o que mais sei é que escrevo com reticências…muitas…

* Pra saber mais sobre o artista que recriou o belo quadro de Matisse: Claudyo Casares

Não gosto de Pollyanna(s). Ponto.

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Não é fácil escolher o livro que menos gostamos, mas não o fiz por questões literárias apenas. Sei que muita gente gosta desse livro e o acha lindo, mas a relação que temos com os livros é muito particular e cabe a cada um/a fazer seu próprio julgamento. Este é o meu…

Fiquei pensando em vários critérios de escolha e de repente…plim…pensei no livro que mais me oprimiu. Aí logo veio a mente “Pollyanna”. Eu devia ter por volta de 11 ou 12 anos de idade, não lembro direito, quando minha mãe chegou com esse livro pra mim. Achei estranho logo de cara, pois ela não tinha o hábito de me presentear com livros, mas entendi tudo quando comecei a leitura. Nessa idade eu vivia num mundo muito particular. Vivia agarrada com livros e com minhas revoltas pré-adolescentes. A Pollyanna era tudo que eu não era e não queria ser, na minha visão, uma conformada. Podem dizer tudo de lindo desse livro…que Pollyanna via o melhor no mundo, nas pessoas e na vida, mesmo diante das maiores dificuldades. Não adianta. Naquele momento, tudo que eu sentia ao paginar o livro era “conforme-se, adapte-se ao mundo, aceite”.

O pior é que todo dia minha mãe perguntava o que eu estava achando do livro. Todo dia elogiava a pitomba da Pollyanna e dizia que eu deveria aprender com a personagem. Humpff…minha raiva da pobre Pollyanna só crescia. Acabei criando um ódio da personagem como aquelas pessoas que desejam matar a vilã da novela das oito. Quanto mais boazinha era a criatura, mas eu a odiava. O pior de tudo é que naquela idade eu não tinha condições de compreender minha raiva e acabava me sentindo mal por detestar uma menina que era um doce, um exemplo de ternura e bondade. Acabava me sentindo o oposto disso e ficava péssima. A Pollyanna estava SEMPRE sorrindo e brincando com aquela chatice de “jogo do contente”. Poxa, que menina chataaaaaaaa. Era só isso que eu pensava. Eu chegava a querer beliscar a criatura pra ela entender que ninguém no mundo era tão lindinho assim. Bom, isso eu digo hoje, pois eu não elaborava que era essa a razão do meu incômodo. Ela não mudava nunca. Não duvidava nunca da bondade dos outros e nem da sua própria bondade. Pollyana é um personagem absolutamente reto e sem nuances. E pra mim, que sempre me interessei muito mais pelas chamadas “vilãs”, foi uma tortura a leitura desse livro.

Na verdade, isso diz muito da minha personalidade. Eu não sou linear, não sou completamente boa e nem má, sou uma pessoa cheia de contradições, assim como qualquer outro ser humano. Não faço a menor questão de ser santa e toda vez que vejo uma pessoa tentando ser Pollyanna, continuo com vontade de dar aquela beliscada. Até hoje!

Rápida sinopse: A menina Pollyanna vai morar com uma tia ríspida (estereótipo da mulher que chamam de mal-amada) depois da morte de seus pais. A tia não a trata muito bem, mas tem uma empregada bondosa (bem no papel de dócil serviçal) que ajuda a Pollyanna. A menina Pollyanna tem uma personalidade bem peculiar – pra não dizer irritante -, pois está sempre sorrindo e vendo o lado bom de tudo. Para isso ela joga o que chama de “Jogo do Contente”, que aprendeu com seu pai, e acaba contagiando a todos e mudando suas vidas. Assim a heroína branca de olhos claros vai vencendo todas as dificuldades e mudando a vida de todos a sua volta. É um livro de auto-ajuda disfarçado e nada mais.:/

É isso, detesto o livro e detesto o espírito Pollyanna de ser. Pronto Falei!

Pra quem desejar tirar suas próprias conclusões, segue o link para baixar a obra de Eleanor HPorter >> aqui

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A mulher habitada – “Coisas que não decidi acabaram decidindo minha vida”

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É absolutamente lugar-comum dizer que foi muito difícil escolher o livro mais querido de todos os tempos, né? Eu sei, mas foi isso. Foi tão difícil que atrasei minha entrada nessa onda, mas enfim…vamos lá. “A mulher habitada” foi o último livro que mexeu com as minhas entranhas. Não o escolhi por ser o último, claro, embora saiba que isso conte muito, pois as sensações ainda estão muito presentes. Sabem aqueles livros que fazem a gente se revirar na própria alma? Enfrentar alguns dos nossos maiores questionamentos, medos, desejos, aspirações e delírios? Foi isso. Engraçado que uma grande amiga minha (Monica Bonadiman) foi quem me indicou a leitura e me emprestou o livro, mas acabei por deixá-lo alguns meses parado na estante. Olhava, olhava e nunca começava a ler. Aí a Monica pediu de volta e eu não quis devolver, depois de sequestrá-lo por tanto tempo, sem ter lido uma página sequer. Seria uma indelicadeza. Por isso, comecei a ler rapidamente e…de repente…não conseguia mais parar. Devorei o livro em menos de três dias. Dias intensos, pois às vezes eu era obrigada a parar a leitura pra chorar, pensar, me desfazer e refazer para voltar a suas páginas.

A Mulher Habitada é um livro de Gioconda Belli, poetisa e revolucionária nicaraguense. A personagem principal do livro “Lavínia” é quase um alter ego da autora que foi militante da Força Sandinista de Libertação Nacional e derrubou, na década de 70, o ditador Anastacio Somoza que aprisionou a Nicarágua por mais de 40 anos.

Duas coisas que não decidi acabaram decidindo minha vida: o país onde nasci e o sexo com que vim ao mundo” diz Gioconda Belli. A autora consegue carregar esse sentimento de forma magistral em todas as páginas do livro. Lavínia, uma das personagens centrais da trama, entra na luta armada pela libertação do país a parti do momento em que começa a questionar sua própria vida que era confortavelmente burguesa. A personagem vai fazendo escolhas políticas ao longo do livro ao mesmo tempo em que começa a se defrontar mais profundamente com sua realidade enquanto mulher. Lavínia passa a dividir, além das lutas, uma história de amor com um revolucionário do mesmo grupo, mas vai encontrar nessa relação aquelas profundas contradições que nós mulheres encontramos quando estamos em movimentos e nos deparamos com os limites que nossos companheiros têm em romper com o machismo.

Mas Lavínia não é a única protagonista do livro, na verdade, são duas mulheres, pois a narrativa vai fazendo paralelos entre a história de Lavínia e da índia Itzá. Ambas não aceitaram os papéis designados a elas enquanto mulheres. O espírito de Itzá, que habita uma laranjeira no quintal de Lavínia, vai sentindo a vida e as sensações de Lavínia através da releitura de sua própria história. Quatro séculos antes, Itzá abandonou o seio de sua comunidade e partiu para a guerra contra os colonizadores espanhóis ao lado de um guerreiro que era seu grande amor. Embora as histórias de amor dessas duas mulheres sejam muito fortes, ao contrário do que possa parecer, não foi por causa delas que Lavínia e Itzá entraram nas lutas. Foi por desejo de auto-descoberta e por uma profunda inquietação com o mundo. Na verdade, os amores vão ser o “lugar” das contradições em suas vidas, sobretudo, na de Lavínia.

Não acho que sou uma boa comentarista de livros…rs…acho que não consigo traduzir nem de longe as sensações provocadas por essa leitura. Narrando assim a história de Gioconda, pode parecer um roteiro bem previsível e piegas, mas não é. Como grande poetisa, Gioconda  consegue mostrar a beleza em meio a tragédia e, principalmente, a coragem diante das incertezas.

Bom, gente…é isso. Não consegui achar o livro em PDF para baixar e parece que não está disponível para venda nas grandes livrarias, mas a Niara me deu a dica desse link onde é possível comprar através da Estante Virtual>> http://www.estantevirtual.com.br/q/gioconda-belli-a-mulher-habitada

Aproveito pra agradecer minha amiga Monica por me indicar e emprestar esse livro maravilhoso. Vou correr pra Estante Virtual, pois é um livro pra gente ter perto da gente😉

Também estão participando da brincadeira a Niara de Oliveira do Pimenta com Limão, a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros.

30 livros em um mês – vamos lá!

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Fiquei sabendo da brincadeira através da amiga “de antenas ligadas” Niara de Oliveira, do Pimenta com Limão,que ficou sabendo através da Luciana Nepomuceno, do Eu Sou a Graúna (que por sua vez ficou sabendo através da Tina Lopes, do Pergunte ao Pixel). O lance é escrever 30 dias seguidos sobre os livros que mais marcaram a vida de cada uma de nós.

A princípio, tive resistência. Aliás, ando com muita resistência de escrever qualquer coisa, mas a amiga das anteninhas – a Niara – convidou com jeitinho…rs E depois que comecei a ver os posts das outras menina, bateu a vontade de relembrar os livros maravilhosos que já li na vida. Senti saudades dos tempos que eu tinha tempo para fazer leituras por puro deleite. Nossa, eu era uma devoradora de livros. Era capaz de concluir livros gigantes em dois dias. O fato de ter sido uma adolescente meio reprimida (não por timidez, pois eu sempre gostei de sair, falar e tal, mas porque minha mãe era do modelo “super-controladora”) contribuiu para que eu me refugiasse nos livros. Então, pra relembrar todos esses livros amados, topei o desafio. Começo a postar no sábado;)

Quem mais está na brincadeira? A Luciana e a Renata Lima, do As Agruras e as Delícias de Ser, Rita, do Estrada Anil e a a Marília do Mulher Alternativa

Nosso roteiro:

Dia 01 — O livro mais querido de todos os tempos

Dia 02 — Um livro que você não gosta

Dia 03 — O livro favorito da sua infância

Dia 04 — O primeiro livro que lhe fez chorar

Dia 05 — Um livro que lhe faz sorrir

Dia 06 — Um livro do seu autor favorito

Dia 07 — Um livro que você odiou mas teve que ler para a escola

Dia 08 — O livro mais assustador que você já leu

Dia 09 — O livro mais triste que você já leu

Dia 10 — O clássico favorito

Dia 11 — O livro favorito com animais

Dia 12 — O livro favorito de ficção-científica

Dia 13 — Um livro que te faz lembrar de alguma coisa, um dia

Dia 14 — Um livro que te faz lembrar de alguém

Dia 15 — O livro favorito dos feriados e folgas

Dia 16 — O livro favorito que virou filme

Dia 17 — Um livro que é um prazer culpado

Dia 18 — Um livro que ninguém esperaria que você gostasse

Dia 19 — O livro de não ficção favorito

Dia 20 — O último livro que você leu

Dia 21 — O melhor livro que você leu este ano

Dia 22 — Livro favorito você teve que ler para a escola

Dia 23 — O livro que você leu mais vezes durante toda a vida

Dia 24 — Sua série de livros favorita

Dia 25 — Um livro que você odiava mas agora ama

Dia 26 — Um livro que lhe faz adormecer

Dia 27 — A história de amor favorita

Dia 28 — Um livro que você pode citar de cor

Dia 29 — Um livro que alguém leu pra você

Dia 30 — Um livro você ainda não leu mas quer

Nenhum minuto de silêncio #RemocoesNao #PareBeloMonte

Padrão

O grupo do #EBlog acordou uma blogagem coletiva, nos dias 29 e 30, para contribuir com o debate sobre as remoções ocasionadas pelos megaeventos como a Copa de 2014 e por mega-projetos como a Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Como sempre faço antes de escrever, fui procurar o que já foi produzido sobre o assunto e o que está circulando na blogosfera. Achei interessante encontrar boa quantidade de material (inclusive colocarei os links no final do post). Muita gente já escreveu sobre o assunto, além disso, existem pequenos vídeos, cartilhas e outros documentos circulando. Depois de passear por esses registros, fiquei me perguntando o que eu poderia escrever que não fosse repetição de tudo que já foi dito? O que eu poderia dizer de novo? Sinceramente, não sei, por isso tive dificuldade de escrever e decidi falar sobre os meus sentimentos e impressões.

Na época que o Brasil foi eleito o país sede da Copa, discuti com muita gente, pessoalmente e via redes sociais, por ter a audácia de dizer que era uma pena, uma tristeza, pois uma tragédia anunciada estava se formando no horizonte. Disseram que eu era dessas pessoas que torcem pelo “quanto pior melhor”. Que isso era coisa de “esquerdista” revoltado que desejava o mal do país só para não ver o digníssimo presidente em momento de glória por ser “o cara” que colocou o país no futuro e trouxe a Copa para o Brasil. Recebi críticas de tantos lados que cheguei mesmo – juro que cheguei – a me perguntar se havia alguma mesquinharia na minha tristeza com a notícia de que o Brasil seria mesmo a sede e que – pior – Fortaleza seria uma das cidades a receber os jogos. Há pouco mais de uma semana, estive numa assembléia popular da comunidade Trilha do Senhor, uma das que estão na lista de remoções para a construção do VLT*, e foi nesse encontro que pude sentir mais fortemente que há mais razões para lamentar que para comemorar a vinda da Copa do Mundo. O discurso alardeado, que enganou/engana muita gente, de que os megaeventos são grandes oportunidades de transformação e melhorias para as cidades-sedes se desintegra como areia fofa diante da fala de qualquer morador/a que exponha a violência com a qual estão sendo tratad@s para que sejam realizadas as obras necessárias. Obras estas que vejo como miçangas e espelhinhos balançados para a população das cidades sob o argumento de que “graças a Copa”, finalmente, as cidades vão receber. Fico me perguntando se é mesmo muito difícil perceber o absurdo que é essa “troca”? Projetos urbanísticos de melhoria dos transportes, habitação, lazer, cultura, saneamento que são obrigações do Estado, de repente, passam a ser usados como “canto de sereia” para que a população aceite o processo de privatização dos lucros e socialização dos custos ocasionados pelos megaeventos. Além disso, o enaltecimento de um sentimento de patriotismo e orgulho é usado a exaustão para que as pessoas acreditem que tudo pode e deve ser feito em nome do sucesso do evento para os olhos do mundo.

A publicidade governamental que ressalta um certo orgulho patriótico e enaltece a identidade local, relacionando-os ao “sucesso” do evento no imaginário coletivo, se faz essencial para garantir os objetivos traçados pelos organizadores (OLIVEIRA, 2009), criando terreno fértil para escamotear ações violentas e de apropriação privada do patrimônio público. Esta característica esteve claramente presente ao longo dos meses que antecederam os Jogos Pan-americanos e agora volta à tona com a recente escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, como pôde ser observado na divulgação de material promocional, na ampla difusão de propaganda nos meios de comunicação, e até mesmo na realização de grande evento na praia de Copacabana para acompanhar e comemorar a escolha da cidade-candidata vencedora, em outubro de 2009. (Erick Silva Omena de Melo e Christopher Gaffney)

Desse modo, tudo vira parte de um grande espetáculo empreendido sob um verdadeiro estado de exceção. Direitos Humanos são sistematicamente violados em nome de uma suposta causa maior. Os megaeventos são para os governos e as elites uma excelente “desculpa” para avançar em processos violentos de intervenção urbana que aprofundam a segregação sócio-espacial das cidades. Dão a tônica que faltava para justificar a expulsão de comunidades pobres de áreas que são importantes para a especulação imobiliária e que de outra forma não receberiam apoio popular.

Desse modo, as intervenções seguem a revelia do direito das pessoas de dizer o que é melhor para a cidade em que elas vivem. A população não precisa mais ser ouvida, afinal, algo muito maior está em jogo. Essa é a lógica de todos os processos violentos de remoção. O mesmo acontece com os povos do Xingu. Quem precisa ouvir quem mora naquela terra quando todo mundo acredita que algo muito mais importante está em jogo? A energia é importante para a maioria, portanto, para que escutar as populações afetadas? É esse o calculo feito pelo atual modelo de desenvolvimento. No caso das remoções nas cidades ocorre o mesmo. Pra que ouvir esse povo? Um povo que muitas vezes vive em áreas privilegiadas baixando o preço de imóveis luxuosos com os quais dividem espaço. Em Fortaleza, por exemplo, a comunidade que citei anteriormente, Trilha do Senhor, está localizada numa das regiões mais nobres de Fortaleza. Não é só para construir o VLT que essa população será removida, mas para fazer “limpeza” social na área que passará a ser muito mais valorizada. Mas ninguém pergunta para onde essa população vai depois de ser despejada, pois o plano só prevê pagamento de indenizações pífias que não garantem que essas pessoas consigam comprar imóveis equivalentes aos que viviam e muito menos em área similar. Incrivelmente, ao invés da suposta melhoria urbana das cidades, o que os megaeventos deixarão de legado será o agravamento do processo de favelização.

Cacique Raoni chora ao saber da liberação para início da construções de Belo Monte.

Como falei no início do texto, não gostaria de ser redundante e repetir todas essas coisas que muitos de nós já sabemos, mas que a maioria aceita resignadamente, afinal, é “assim que gira o mundo”.  Recuso-me a aceitar que vamos ficar de braços cruzados diante da dor dos outros. Che Guevara dizia que ser solidário é correr o mesmo risco, acho linda essa reflexão, mas é tarefa árdua. Como podemos correr o mesmo risco se estamos em “lugares” distintos? Por mais que possamos nos deslocar para compreender a dor dessas pessoas que estão com suas vidas e história ameaçadas, não corremos os mesmo riscos e talvez resida aí a dificuldade de colocar nossos corpos nessas lutas. Por isso, precisamos criar pontes. Precisamos ouvir essas pessoas e tentar fazer com que o mundo as escute também. Existe todo um aparato social e midiático construído para fazer parecer que elas não existem ou que nada fazem. O que não é verdade. Milhares de pessoas estão organizadas no sentido de resistir à degradação de suas histórias e seu direito de ser o que são, mas existe, em paralelo a isso, uma ideia hegemônica e enormemente propagada que insiste em jogar essas resistências sob o estigma do atraso. É o mito do desenvolvimento que rotula todos os povos que estão fora do esquema do capital e sua modernização homogênea como “entraves”. É justamente nesse ponto que precisamos intervir. Precisamos contribuir com a descolonização do pensamento. Passo fundamental para isso é reconhecer que existem resistências ao modelo imposto e contribuir com a sua propagação. Num mundo verdadeiramente plural não existe apenas um modo de viver. Por isso, precisamos ser obstinados no sentido de colocar nossos corpos, almas, ouvidos e vozes disponíveis para todos os povos que lutam pelo direito à auto-determinação e pela manutenção de seus modos de ser e existir. Não é tarefa fácil. Vez ou outra bate mesmo um sentimento de desânimo e nos sentimos tão pequenos diante de toda essa complexidade e incerteza. Continuo sem ter respostas sobre qual a melhor forma de construir aquelas pontes sobre as quais falei, mas aprendi que tem coisas na vida que só aprendemos fazendo. Caminhar é um exemplo. Por isso, vamos caminhando SEM fazer nenhum minuto de silêncio.  

* VLT – Veículo Leve sob Trilhos é uma espécie de metrô de superfície urbano de passageiros que está previsto para ser construído em Fortaleza, como parte das obras para receber a Copa de 2014, promovendo a remoção de mais de 4mil famílias.

Links para os #EBlogs

O Inferno de Dandi: O Brasil faz a Copa, mas como fica a Cozinha?
Blog do Tsavkko – The Angry Brazilian: Um país sem qualidade: PAC, PNBL e ProUni #PareBeloMonte
Desenvolvimentismo ou capitalismo?

Outros links importantes

Desalojamentos forçados em BH para Copa do Mundo? não…
ONU denuncia violação de direitos humanos na remoção de famílias para obras da Copa do Mundo de 2014
Copa 2014: comunidades se mobilizam contra políticas de remoções no RJ
Moradores dizem não às remoções para a Copa
Carta de apresentação do Comitê Popular da Copa (Fortaleza)
Conheça o guia e a cartilha sobre remoções forçadas
ENTREVISTA RAQUEL ROLNIK: Relatora expõe a sua visão sobre os problemas urbanos, em especial o da moradia, e relata que tem recebido muitas denúncias de despejos violentos.
ENTREVISTA CARLOS VAINER: Professor do IPPUR/UFRJ avalia que os megaeventos esportivos estão relacionados a um novo modelo de planejamento urbano em que a realização de negócios prevalece aos interesses do conjunto da população.
EXPERIÊNCIA INDIANA: Assista ao vídeo sobre os Commonwealth Games realizados este ano em Nova Delhi, na Índia, com depoimentos de Miloon Kothari e Shivani Chaudhry, ambos da Housing and Land Rights Network (preparado especialmente para o seminário “Impactos urbanos e violações de direitos humanos em megaeventos esportivos”, realizado em novembro, em São Paulo).
Jornal britânico Guardian denuncia as remoções para a Copa do Mundo
Protesto reúne desalojados por obras da Copa 2014
Belo Monte: “No limite da irresponsabilidade”
Megaeventos e a negação da participação popular